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O cabrito de Barueri

      Olhei para baixo e senti medo. No centro, terra úmida e escorregadia. Pelos lados, grama, raízes, galhos caídos, pequenas pedras. Bem lá para baixo, uma calçada de paralelepípedo. Se errasse o ataque poderia me machucar feio.O sorridente professor dizia que quanto menos eu travasse, melhor seria para músculos, tendões e joelho. Só me preveniu:

      – Não mude de ideia no caminho. Se for rápido, vá acelerado até lá embaixo. Não dá para travar no meio.

      Parti decidido a chegar logo na calçada. Bem no meio do caminho, me senti inseguro. Coloquei o pé esquerdo de lado para a descida, tentando reduzir a velocidade. O tênis não resvalou pela terra úmida, tentei evitar a queda com o pé direito e... chão! Caí de costas, mãos esfoladas, estava vivo.

      Estava envergonhado, fiz tudo que o professor tinha me avisado para não fazer. Ele recomendou que escolhesse a parte suja da trilha. Nas laterais, com galhos e pedras, teria mais aderência que no centro. E fui pelo meio. Ele me disse para não tentar travar nem colocar o tênis de lado.

      – O tênis é o seu pneu. O que acontece no barro quando você gira a roda travando? Derrapa, certo? Aqui é a mesma coisa.

      No chão, tentando me levantar, aguardei uma frase de preocupação do mestre. Que nada.

      – Vamos, levanta, continua até o final.

      Gostei. Mais uma lição que aprendi na última frase. Corrida em trilha não pode ter frescura. Caiu, levanta. O terreno é instável, escorregar é do jogo. A queda aconteceu em uma quinta-feira ensolarada de fevereiro no Parque do Matão, na Vila dos Remédios em São Paulo. O nome do parque é um justo tributo a sua vocação. No meio de uma imensa confusão urbana, nas proximidades da Marginal Pinheiros, o Matão é uma bombinha de oxigênio. Está mais para mata do que para parque. Trilhas largas e estreitas, praticamente apenas subidas e descidas.
Quando telefonei para José Virginio querendo marcar uma reportagem sobre subidas e descidas ele logo foi sugerindo o Matão. Virginio é atleta profissional, bi-campeão do Circuito Brasileiro de Corrida de Montanha, professor pós-graduado de educação física. Mora em Barueri. E é um cabrito em forma de gente.

      Conheci Virginio por acaso na Nike 600 k. Ele estava correndo pela equipe da Dersa e obviamente foi o “rei da montanha” da prova com o melhor tempo no pior e mais acidentado trecho do desafio. Estávamos chegando no Rio e eu aguardava com o Edu Elias a passagem do bastão. Edu iria encarar a última serrinha para chegar ao Recreio dos Bandeirantes. Virginio estava ali, aguardando a sua vez de correr. Puxei conversa com ele. E fiquei impressionado com a sua explicação sobre técnicas de subida e descida. Eram leis da física sendo passadas de uma forma muito simples. Colei um postit amarelo no cérebro. Um dia eu precisava fazer algo com ele na Runner’s. Amanhã conto mais.

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