
Reli em janeiro um soberbo livro que tinha devorado no século passado. No Ar Rarefeito, de Jon Krakauer, conta a mais desastrada temporada de expedições ao Everest da história. Em 1996, 12 pessoas morreram tentando subir a montanha mais alta do mundo. Alpinista e jornalista, o americano Krakauer conta a aventura no livro.
Ao escrever o post passado sobre suplementação lembrei-me do livro. Uma das questões centrais do alpinismo diz respeito ao oxigênio. Os alpinistas entram na zona da morte quando passam dos sete, oito mil metros. No ar rarefeito do título, os movimentos ficam penosos, o raciocínio embaça, aumenta dramaticamente o risco de um edema cerebral. E escalar com cilindros de oxigênio se torna algo fundamental para a própria sobrevivência.
Dentro do próprio alpinismo, uma questão ética se apresenta: escalar com oxigênio suplementar não é “roubar” da montanha? Nem vou me aventurar nessa seara, sinto vertigem em parapeitos baixos de prédios. Não sou do ramo, e acho que estão certos os puristas que escalam montanhas na raça. E estão certos também os precavidos que respiram oxigênio engarrafado para reduzirem seus riscos.
Conectei alpinismo e corrida para dizer que sou eticamente contra o suplemento. Antes que seja acertado pela primeira pedra de uma nutricionista (está no feminino porque só conheço mulheres na área, curioso isso), vou me explicar. Não me sinto bem tomando pílulas e pozinhos. Parece que estou roubando da pista. Prefiro comida de verdade e bebida “normal”. Estou me complicando cada vez mais, ainda vou tentar me explicar.
Minha relação com a alimentação é um tanto simples, ou melhor, simplória. É bom? Não faz mal? Então está ótimo. Meu prato normal diário tem metade de salada, um quarto de uma carne qualquer (peixe ou ovo também) e um quarto de carboidrato. E segue a vida. Para mim, não faz muito sentido se alimentar para correr. Eu me alimento. E corro. Até tento escolher os alimentos certos que vão me ajudar no exercício, mas comer e correr são momentos diferentes do meu dia. Sinto que a nutricionista não está gostando nada, nada do meu discurso. Vamos em frente.
Nunca experimentei aminoácido, BCAA, albumina ou maltodextrina. Todos úteis para muitos corredores, nem vou discutir isso. Mas para mim tem gosto de doping. Ai! Isso doeu. Acabei de tomar uma pedrada da nutricionista.
Não estou dizendo que é doping de verdade, dona. É só um jeito meio natureba de ser na corrida, desculpe o mau jeito. Ah, e o Gatorade que eu tomo no meio da prova ou no treino? Tomo porque é bom, parece o Ki-suco da infância. (“Ei, jarrão? Ki-suco saboroso, geladinho, Ki-suco mata a sede brincando...” e assim ia o jingle). E o gel que tomo na maratona? Bom, aí é o oxigênio salvador dos 8 mil metros, é ele ou fim de prova.
Relendo o que escrevi, parece tudo um tanto contraditório e estranho. Como alguém que não acredita em homeopatia, não conseguiria ser vegetariano e toma refrigerante pode se dizer “natureba”? Pois é, as pessoas não são lineares mesmo, cada um com a sua maluquice.
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