NUMB3RS

      Ufa! Acho que foi a capa que deu mais trabalho até agora. A foto foi incrivelmente fácil. O nosso modelo corredor Rangel corre fácil, é do ramo, entendeu na hora o que o nosso fotógrafo Renato Pizzutto estava pedindo. Só sofreram um pouco com o calor, ambos quase derreteram.

      O problema veio a seguir. Tínhamos uma matéria bem interessante sobre distâncias. As vantagens de correr provas variadas na mesma temporada. Como uma pode ajudar na outra. A reportagem funciona também para quem só quer correr os 5 km ou apenas a maratona. Oferecemos as planilhas todas, acreditamos que o pacote estava bem atraente.

      Muito bem, mas precisávamos contar isso para o potencial leitor que passa os olhos sobre a gente em um movimento de segundos. Naquela poluição visual toda da banca, temos que vender rapidinho nosso peixe. Mensagem clara e curta. A missão de nosso diretor de arte Rodrigo Maroja era colocar em destaque as distâncias. Agora, prontinho, parece fácil e óbvio. Não foi. Tentamos juntar distâncias na mesma linha, ficou tudo embolado, parecia número com vírgula. Foram ao menos umas dez tentativas até chegarmos aí. Gostamos do resultado.

      A revista de fevereiro merece outros destaques. A reportagem sobre o sono, uns segredinhos sobre gelo e recuperação de lesões, aprofundamos a polêmica do correr descalço, contamos sem pressa a emocionante história do canadense Terry Fox. A matéria sobre correr na rua considero obrigatória para todos que enfiam o tênis no asfalto. Não costumo falar muito de agenda, mas essa está especial. Falamos da maratona de São Paulo, da nova meia mineira, da mini carioca e de quatro maratonas do “B” internacionais. Tem mais, tem coisa polêmica deixo isso para depois...

Primeiros passos

      Sou um pai, no mínimo, estranho. Não tenho uma foto sequer dos meus filhos na carteira, não gravei vídeos deles quando pequenos, não me lembro de vários momentos emblemáticos da infância deles. Como foi o aniversário de primeiro ano da Nina? Não sei. E o primeiro dentinho do Filipe, nasceu quando? E eu vou saber? Quais doenças eles já tiveram? Silêncio.

      Falei estranho, não canalha. Guardei outras coisas na memória. O dia em que saí com eles de bicicleta pela primeira vez está gravado em alta definição cerebral. Uma cadeirinha na frente, outra atrás, mais uns pacotes que a gente carregava. Encontrei um fotógrafo amigo nesse dia na Rua Bandeira Paulista. O olhar dele era um misto de reprovação e admiração.

      Lembro em especial de um fim de tarde em 1996. Em um parque, eu me posicionei uns cinco metros distante de minha mulher. Ela soltou a fera. Com 11 meses e alguma coisa, o Filipe veio trôpego em um tiro de 6 minutos por quilômetro. Não caiu. Tecnicamente, aquilo recebeu o nome de caminhada, a primeira. Poderia ser primeira corrida, não estaria errado.

      Para quem não embarcou ainda nessa aventura da paternidade, saiba que isso é diferente de tudo. O momento do nascimento do bípede é marcante. A gente sente uma sensação notável de competência. Então fizemos certo, conseguimos. Nem é bem verdade, uma pequena prepotência paterna. Quem fez tudo foram eles, a natureza e o comandante do barco, se houver.

      Lembrei de tudo isso por causa de uma chamada da capa que estamos fechando por esses dias (segunda eu mostro pronta). Tem ali a palavra caminhada. Em uma revista de corrida? Sim, é o primeiro passo. Falamos dias atrás aqui sobre o assunto da perda de peso como porta de entrada para novos corredores. A caminhada vem antes. Ninguém começa a correr sem caminhar direitinho.

      Anos depois dos passinhos iniciais do Filipe, aconteceu algo parecido. Não tinha Runner’s, trabalhava só na Placar. Minha mulher pensava em correr e tinha a certeza quase absoluta de que não conseguiria. Montei uma planilha tabajara que, se encontrada pelo Almirante Nelson e sua polícia secreta da ATC (Associação dos Treinadores de Corrida), me dariam uns seis anos enjaulado. Eu mesmo tinha dúvidas se ela conseguiria. Apesar do racional dizer que a chance de dar certo era enorme, tirar alguém da inércia é sempre algo improvável. Em três meses de planilha caminha-trota-caminha, ela completou uma Corpore de Natal de 5,6 km só correndo. Tenho certeza que fiquei mais feliz do que ela. A sensação de publicar uma uma planilha para caminhantes e receber meses mais tarde uma carta de um corredor é bem semelhante.

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SobreAutor
Sérgio Xavier Filho tinha 42 anos e achava engraçada a coincidência númerica com os 42 quilômetros da maratona. Perdeu a piada e mais alguns fios de cabelo quando completou 43 anos. Desde novembro de 2008, acumula o comando da Placar e da Runner's World no Brasil. Já correu dezenas de 10 km, várias meias, quatro maratonas e um tantão de provas de revezamento.

Para 2010, promete fazer direitinho musculação e alongamento.
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