Ossos do ofcio

Outro dia travei uma pequena discusso sobre a Argentina com o confrade Marcos Cruvinel. Por gostar muito do pas, tendo a ser leniente e ver com olhos mais camaradas o pas. Cruvinel esteve na maratona e passou por alguns perrengues. Foi passado para trs, foi bem tratado, teve de tudo. Tudo melhorou quando atendeu o desejo de seu pequeno e comprou uma camisa do Messi. Camisa da Argentina. Pronto. Um brasileirinho com a camisa argentina fez que a famlia recebesse tratamento Vip. Se soubesse, Cruvinel teria vestido toda a famlia de Messi desde o avio.

Sigo com a minha impresso de que eles so um Brasil, apenas um pouco mais europeu. Tambm gostam de levar vantagem em tudo, no so muito chegados aos aspectos disciplinares. Como a gente. Mas so cultos, criativos, espontneos. Enfim, gosto de l, meus argumentos passam pelo emotivo, no tem jeito.

Dois dias depois da maratona eu andava por Palermo Viejo, a Vila Madalena deles. Minhas mulheres procuravam o que procurar em lojinhas. E eu fiquei alguns minutos na esquina de uma rua chamada Jorge Lus Borges (viram, at em nome de rua eles so buenos). S observando.

Um caminho parou em fila dupla. Da caamba saltaram dois homens. Atravessaram a rua e se dirigiram ao comrcio da frente. No dava para ler a placa de onde eu estava. Os sujeitos pegaram grandes bandejas na loja, voltaram ao caminho e jogaram tudo na caamba. Repetiram a operao mais duas vezes. Numa delas, um derrubou o produto transportado no asfalto. S a vi o que era: ossos. Eles estavam recolhendo carcaas de "carnicerias" (bom, em espanhol nem tudo to potico quanto nome de rua). Pela conversa entre eles, percebi que a prtica era comum. Faziam a ronda pelos aougues da cidade e levavam os ossos para algum lugar. S que tudo a cu aberto, sem embalagens, nada.

Corta para a cena seguinte. O caminho se vai. Minutos depois um taxista para em fila dupla. Desce do carro para verificar algo no porta-malas. Nesse momento um outro taxi vem buzinando e freia em cima do sujeito, quase o atropelando. Desce do carro, prevejo briga feia, at porque os dois motoristas so muito grandes. Eles ficam frente a frente e... se beijam. Na face, como fazem amigos na Argentina. Hola que tal, como anda, gordito, quanto tiempo, afeto no faltava. Enquanto isso, o trnsito foi enroscando. Alguns carros faziam meno de reclamar e desistiam quando viam o tamanho das "crianas" que seguiam conversando animadamente.

Em dez minutos, foi o que vi naquela esquina. Duas cenas que ajudam a explicar um pas que, apesar de no ser igual, bem parecido com o nosso. Um pas em que os Iphones se proliferam, mas que ainda revela ossos transportados em caambas como em carroas de 1800. Costumes que se sobrepe 'as regras de trnsito.

A velha amizade dos brutamontes no podia esperar. Para que garimpar uma vaga de estacionamento se o encontro podia ser ali e agora? Um p na modernidade e outro no passado. A lei que esperasse. Primeiro nosostros. Eles so assim. Ns tambm.

Marlson e o sorriso

Como difcil encontrar o lugar de Marlson dos Santos na histria da corrida brasileira. Empilhou recordes brasileiros e sul-americanos em vrias distncias, ainda tem as melhores marcas nos 5000, 10 000 m e meia-maratona. Ganhou duas maratonas de Nova York. Sabe o que isso? O maior de todos os tempos? Sim, no, talvez, sinceramente no sei dizer.

Quando pensamos na meia distncia lembramos de Joaquim Cruz. Duas medalhas olmpicas, ouro nos 800m em Los Angeles-1984 e prata em Seul-1988. Na corrida de longa, Marlson no est sozinho. Ronaldo da Costa cravou um recorde mundial na Maratona de Berlim em 1998 (2h06min05). Vanderlei Cordeiro de Lima fez o que fez em Atenas, com padre irlands e tudo. Bronze com cara de ouro. Marlson papou duas NY. O maior? No sei.

S sei que sempre vejo Marlson como algum que merecia um tantinho mais. Queria muito v-lo com uma medalha olmpica no peito. Queria muito que ele se aposentasse com o recorde sul-americano na Maratona. Encontrei-o faz um ms. Estava se preparando para a maratona de Amsterdam. Quando perguntei sobre suas chances reais ele sorriu. Foi sincero. Disse que ia tentar fazer o melhor. Sabia que no seria fcil. Sabe que est lutando contra o tempo, nos dois sentidos. Alm do desafio de sempre do cronmetro, o taxmetro dos treinos cobra uma alta conta. Ele est mais velho. No deu em Amsterdam (confira aquia entrevista do treinador Ricardo D'ngelo sobre o desempenho brasileiro l).

No sei se dar algum dia pra baixar o tempo de Ronaldo e conquistar a medalha. Olmpica. S sei que Marlson seguir tentando. E sorrindo.

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SobreAutor
Srgio Xavier Filho j correu de tudo. Do cachorro, da me que o obrigava a fazer o dever de casa, dos colegas maiores. Depois aprendeu a correr melhor, vieram as meias, nove maratonas e outras provas malucas mundo afora. Aos 47 anos, dirige Playboy e Men's Health da Editora Abril, alm de ser colunista da Runner's World e da Placar. Escreveu "Operao Portuga", "Correria" e comenta na Bandnews FM. Dedilha ainda umas coisinhas pelo @sxrunners no Twitter. Seu email o sxavier@abril.com.br.
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