As duas bandeiras

Queria pedir perdo a todos os corredores que por acaso me sigam no Twitter. Fui um chato. Inundei a timeline com bate-bocas sobre o racismo no futebol. Prometo me conter daqui para a frente.

Queria me explicar. De uns tempos para c, percebi que mais produtivo eu centrar fogo em menos assuntos. Escolher algumas bandeiras e trabalhar mais forte nelas. Na vida urbana, por exemplo, resolvi adotar a causa do sinal furado. o que mais me incomoda no trnsito, na vida, o supremo desrespeito. J escrevi aqui, na revista, falei na rdio, vou seguir nisso. Feito um chato. inadmissvel que um carro ultrapasse o sinal vermelho sem dar bola para o pedestre que vai atravessar a faixa de segurana. Como corredor urbano que sou, vejo isso diariamente. Vejo a morte de perto.

No futebol, peguei faz uns quatro anos a bandeira do racismo nos estdios. Justamente porque o clube com maior nmero de registros de casos o meu, o Grmio. O estado que exibe lindos ndices de desenvolvimento, que me orgulha com um bom nvel cultural, lanterninha no quesito da tolerncia racial. A forte imigrao europeia ajudou muito na qualidade de vida, mas travou um pouco esse outro lado. Tem racismo no resto do Brasil? Claro, casos e mais casos que vo pingando aqui e acol. Mas quando vemos nmeros de ocorrncias, l estamos ns os gachos nas cabeas. Por ser gremista, mais dolorido constatar o fenmeno. D pra mudar, o primeiro passo perceber que h um problema. Nas discusses com os gremistas, a tese central da turma que eu generalizei tudo e no levei em conta tudo de ruim que acontece em toda a parte. A argumentao bsica "olha l, o outro fez igualzinho". E se todos so ruins, eu me transformo em bom. Se algum quiser saber mais sobre o tema, coloco aqui o texto que escrevi na sexta-feira e um outro que escrevi em julho de 2011.

Prometo falar de corrida amanh e tuitar o mnimo possvel para manter a bandeira ereta. Fincar essas duas bandeiras, alis, no significa que esquea o resto todo. H outros assuntos que me interessam especialmente, a homofobia, a mania de furar filas, a polmica da musculao e outros tantos. Mas por hoje isso.

Fotos: Creative Commons: Tania Balsarin eGabriel Hess, www.fgf.com.br

Ah, eu sou macaco! 1/07/2011

Deciso do Campeonato Gacho de 2011, Estdio Olmpico. O Grmio, que j havia vencido o primeiro jogo, comea o Grenal com 1 x 0, toma a virada e perde o ttulo na deciso por pnaltis. Pior que perder a partida - e o campeonato para o Internacional -, foi perder a compostura. Ainda no primeiro tempo, o tcnico Falco resolveu colocar em campo o atacante Z Roberto. Quando aquecia, o jogador goiano comeou a ouvir um som da torcida. Parecia uma imitao de macaco. Z Roberto negro. Sem acreditar, o atacante perguntou aos companheiros de time se estavam ouvindo aquilo mesmo. Os colorados responderam que sim, que era normal isso acontecer no Sul.

No estavam mentindo. O Juventude j coleciona dois episdios por atos racistas. Em um deles, o ento zagueiro Antnio Carlos fez um gesto se referindo cor da pele do volante Jeovnio, do Grmio. Antnio Carlos tem a pele clara. Jeovnio, escura. Em outro, torcedores imitavam macacos quando o colorado Tinga tocava na bola. O Grmio foi acusado de hostilizar Elicarlos, do Cruzeiro, na Libertadores de 2008. Elicarlos negro. Recentemente, houve at um racha na torcida Geral do Grmio. Entre os motivos apontados para a discrdia estaria a colocao de bandeiras com as figuras de Lupicnio Rodrigues e de Everaldo, que teriam sido vetadas por eles serem negros. De fato, as bandeiras s so vistas no setor da "dissidncia".

No se pode dizer que sejam casos isolados. A cor da pele sempre foi, no Brasil - e em especial no Rio Grande do Sul, um dos estados da federao com menos negros -, uma maneira de diferenciar o outro. Aquele "nego", o "crioulo" da farmcia, o "pretinho" da escola. O inverso no exatamente verdadeiro. O "branco" da farmcia ou o "clarinho" da escola no so modos corriqueiros de se referir a algum.

No futebol, o gacho nunca teve muita cerimnia para usar a cor da pele na diferenciao dos clubes. O Grmio representava a elite; o Internacional, mais popular, virou "time de nego". Com o passar dos anos, ficou tudo muito parecido. O Grmio conquistou torcedores nas camadas menos favorecidas, o Internacional arregimentou fs nas elites. Mas o tema branco e preto seguiu sempre na pauta das arquibancadas.

a que entra a histria da "macacada". Pelo mundo afora, no h smbolo maior de discriminao racial que chamar algum de macaco. A ofensa universal, ela pode ser entendida na Finlndia, na Austrlia ou no Sri Lanka. A ligao direta, a cor escura da pele deixa claro que macaco, no caso, igual a negro. O rebaixamento evidente, o negro desalojado da condio de ser humano para virar bicho. A ideia passa por a. E tudo to fcil de demonstrar, um gutural "uh, uh, uh" ou uma banana jogada fazem com que a mensagem seja percebida na hora.

No futebol europeu, manifestaes de racismo so sinnimos de confuso. O negro camarons Samuel Etoo fez o jogo parar quando ouviu da arquibancada do Getafe um "uh, uh, uh". O Getafe foi punido. Roberto Carlos, branco para o padro brasileiro e negro para o europeu, foi tambm vtima de racismo. Recebeu de presente uma banana de um torcedor do Zenit, da Rssia. Virou escndalo internacional.

A questo racial se aprofunda quando a rivalidade entra em campo. O Internacional se tornou o time da macacada. Muito gremista se refere, sem qualquer trao de constrangimento, ao Inter como "os macacos". A "macacada" aparece na letra de alguns cnticos tricolores.

Uma parte da torcida colorada at incorporou a "brincadeira". E h bandeiras com um macaco colorado. A prpria diretoria, para se salvar no politicamente correto, resolveu demitir o Saci do emprego de mascote das categorias de base. Perneta e com seu cachimbo inseparvel, ele poderia estar relacionado ao fumo e at ao consumo de crack. A soluo foi curiosa. A mascote escolhida foi o macaquinho, e seu nome foi escolhido por votao. Escurinho, um dolo negro dos anos 70, batizou o macaquinho. Assim, os prprios colorados ofereceram aos rivais a argumentao de que "no h nada de mais" em chamar outro ser humano de macaco. Tudo normalssimo.

O caso especfico de Z Roberto provavelmente dar em nada. A ensima imitao de macaco tem tudo para cair no esquecimento. Enquanto isso, os pais torcedores seguiro em domingos ensolarados de estdio ensinando aos filhos o quo saudvel e divertida a brincadeira. E o Rio Grande do Sul seguir espantando quem vem de fora e no acha to normal esse "uh, uh, uh".

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SobreAutor
Srgio Xavier Filho j correu de tudo. Do cachorro, da me que o obrigava a fazer o dever de casa, dos colegas maiores. Depois aprendeu a correr melhor, vieram as meias, nove maratonas e outras provas malucas mundo afora. Aos 47 anos, dirige Playboy e Men's Health da Editora Abril, alm de ser colunista da Runner's World e da Placar. Escreveu "Operao Portuga", "Correria" e comenta na Bandnews FM. Dedilha ainda umas coisinhas pelo @sxrunners no Twitter. Seu email o sxavier@abril.com.br.
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