Ah, se o juizado me pega

      Não dava. Não era brincadeira para amadores. O guia do Atacama me garantia que não tinha problema, que era possível. Fiquei na dúvida. Será? Será que daria para subir os 5 616 metros do Vulcão El Toco? Conversei com a família. Ficaram ressabiados. Usei os argumentos do guia. Com uma 4 x 4 é possível chegar até os 5 200 metros. Dali são “só” 400 metros acima em uma caminhada que nem era técnica.

      Faltava roupa, desse ponto já há muita neve e não tínhamos levado uma muda de inverno para o verão chileno. Eles emprestavam, isso não era problema. Temi a altitude, já estive nos 4000 de La Paz e sei que não é fácil.

      Apesar de tudo recomendar “não”, eu disse “sim”. E partimos, 7h da manhã. E dá-lhe subir. Primeiro pela impressionante subida que partia de São Pedro do Atacama  (2300 metros acima do nível do mar) até a fronteira com a Bolívia (4500m). Foram 45 km subindo, mas não em uma serra como conhecemos no Brasil, com um caminho serpenteado. Foi uma lenta e constante subida, reta, como num plano inclinado. Só na altura da fronteira passamos a serpentear o El Toco. E chegamos até os 5200 metros do “acampamento base”. Ao descer da camionete para tomar um café da manhã improvisado, senti a roubada. Faltava ar. Na hora me lembrei de tudo que já li sobre o Everest e outras histórias de altitude.

      E fomos, com bastões de esqui, subindo lentamente na neve. Nina sentiu mais o esforço. “Falta muito?”. Faltava, fomos levando a mocinha de 14 anos na conversa, mas eu tinha na cabeça a mesma pergunta que ela repetia a cada cinco minutos. Com uma hora e pouco de caminhada, eram quatro passos e o ar não vinha. Estômago embrulhado. Cabeça pesando dez quilos. Minha mulher Eliane parecia melhor, Filipe era quem estava sobrando.

      E meu preparo de corredor? Necas, na altitude cada um é cada um. Cada um sente de um jeito o mal da montanha. Duas horas e quarenta depois, o cume. Não me lembro de chegar tão cansado em nenhuma outra corrida. Faltava energia para celebrar o feito, estávamos a 5616 metros em um ponto que geralmente só se chega de avião. Fotos, água e iniciamos a descida. Nina melhorou, voou. Eu senti mais, até uma tontura apareceu. Levamos só 40 minutos até a camionete. Perdão, seu juiz, não fiz por mal. Não boto mais as crianças em roubadas como essa, prometo.

17 Comentários:
Marcelo Assunção - Rio (19/02/2012 @ 09:18)
Não havia lido o seu post, mas nesse sábado fiz algo parecido com essa sua aventura, embora cariocamente limitado: subi com a família pelas trilhas da floresta até o Pico da Tijuca - molezinha, só 1.021 metros. Sem altitude e sem deserto, mas já foi algo para meus filhos lembrarem para sempre! Aventuras como essa são sensacionais, vocês estão de parabéns!
Eduardo - BH (18/02/2012 @ 12:16)
Esse tipo de aventura une a família e será sempre uma lembrança. Mudando de assunto, deixo uma pergunta, já que por diversas vezes se discutiu a respeito de organização de provas e organizadores: será que alguém, quem sabe a Iguana Sports, pode explicar o motivo da exclusão de BH no circuito Mizuno 10 Miles de 2012, mesmo depois de estar no circuito por 3 anos consecutivos e com sucesso???
Felipe Luis Matos - Brasília (17/02/2012 @ 16:05)
O Viáfara e o Laurindo são 2 feras... Mandam bem demais nos comentários..
Laurindo - SP/SP (17/02/2012 @ 13:07)
Gostaria muito de fazer o caminho de Santiago de Compostela, tendo Viáfara, Alexandre Frotinha, Nishishiki, Caribé e o Seu Sérgio Runner's ao meu lado. Todos jogando conversa fora, colhendo cerejas pelo caminho. Faríamos uma fogueira a noite e comeríamos marshmallows, sem esse sofrimento da altitude. Infelizmente não tenho verba, mas quem sabe o Sr. Victor Civita não possa patrocinar nossa aventura.Quem sabe...
Sergio Melo - http://corredorfeliz.blogspot.com/ - Rio de Janeiro (17/02/2012 @ 11:29)
Viáfara, amigo, tendo um conhecido poeta como você entre nós a gente precisa se superar a cada dia he he se fosse no RJ eu teria algumas dicas para dar, mas aí em SP eu estou muito por fora... Quem quiser vir no RJ e conhecer um lugar pouco explorado, bem sinalizado, seguro, e de vista sensacional, vá ao Pico da Tijuca. Só não deixe de me convidar he he.
Frotinha - SP (17/02/2012 @ 11:24)
Roubada??? Ta de sacanagem, Sérgio Xavier?!?! As crianças terão histórias pra contar por um mês! E quando já forem adultos, terão a lembrança de uma aventura que qualquer um de nós gostaria de ter (só que muito mais colorida, como toda memória de infância costuma ser...)
Viáfara - crítico de cinema - SP - SP (17/02/2012 @ 11:04)
Nossa, Sérgio Melo, que poesia, fiquei muito emocionado com seu texto. Muito lindo, de coração... Queria me aventurar então, pois passo os dias dentro de casa. Mas onde posso ir?? Será que existe uma montanha no Carnaval... alguém quer ir comigo?? Vamos marcar de ir ao pico do Jaraguá ou nas agulhas nmegras...n é um lindo sonho, obrigadio
Viáfara - crítico de cinema - SP (17/02/2012 @ 11:03)
Nossa, Sérgio Melo, que poesia, fiquei muito emocionado com seu texto. Muito lindo, de coração... Queria me aventurar então, pois passo os dias dentro de casa. Mas onde posso ir?? Será que existe uma montanha no Carnaval... alguém quer ir comigo?? Vamos marcar de ir ao pico do Jaraguá ou nas agulhas nmegras...n é um lindo sonho, obrigadio
Sergio Melo - http://corredorfeliz.blogspot.com/ - Rio de Janeiro (17/02/2012 @ 10:49)
xará, eu acho que de "roubadas" como essas é que se vive bem a vida. Isso é uma oportunidade única de união da família e um momento que nunca se apagará da memória. Como diz Amyr Klink “Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”. Eu adoro esse tipo de aventura, embora atualmente esteja impossível com um bebê de 1 ano em casa. Parabéns pela iniciativa!
Marcel Pracidelle - São Paulo (17/02/2012 @ 10:08)
Esse é o tipo de roubada que eu adoro. E sobrou história pros filhos contarem para os amigos...
Rogério Yokoyama - Palmas/TO (17/02/2012 @ 09:43)
Se porventura o Sérgio Xavier desistir da carreira jornalística ligada ao esporte, já tem uma saída : guia turístico. A propósito (e eu me incluo no grupo de pessoas interessadas no assunto) bem que poderias (se já não bastasse gerenciar duas revistas e mais um blog) criar outro blog dentro do blog revista Runners : Colunas mensais com o roteiro dessas viagens, contando o caminho das pedras, dicas e etc. Lógico que é tudo brincadeira. E parabéns por levar toda a família nesta empreitada.
Marcelo Terraza - Brasilia (17/02/2012 @ 09:02)
hahahahah.. pensei exatamente como o Nishi, serão seus filhos q não irão te levar mais...kkkk.. q MICO, eles devem ter pensado.. mas no final deve ter sido inesquecivel.. valeu. Abs, m. > keep running and ... arfff
Nishi - São Paulo (17/02/2012 @ 08:45)
Pelo jeito são os filhos que devem estar comentando no colégio que nunca mais levam o pai numa roubada dessas... pô, tinha neve, quando eu fui era só pedra e um vento dos infernos, que soprava de todos os lados ao mesmo tempo. Tive que urinar na subida e todos os ventos ali estavam contra mim, uma nhaca...
FELIZ - Pirenópolis/Goiás (17/02/2012 @ 08:42)
@Sérgio, deve ter sido uma aventura e tanto, porém o receio de acontecer algo errado deixa o coração de pai um tanto aflito. Valeu pelo visual e pela conquista em família, parabéns e bons treinos nos dias de folia. vamos correr!!!
Viáfara - Rei Momo - SP (17/02/2012 @ 08:33)
Ahhhh já entendi sua tática. Você quer unir tudo: a perfomance, aventuras, tempo para os filhos e união em família. é um belo tema. Ao falar em temas eu me lembro de um tema de jazz de guitarra quando tocava com meu professor. Fazíamos vários temas e depois iámos solando, que lindo, delicioso. Vamos ver o que reserva esse carnaval, vejo figuras femininas, não pelas passarelas, e tento entender algo atrás de rostos maquilados e corpos esqguios, talvez queira uma rpteção, sabe lá. Bjs a todos
carla - SP (17/02/2012 @ 07:25)
AMO trakking assim, estive em La Paz fiz a trilha inca no Peru e no Nepal fiz uma de dias na região do Annapurna chega-se bem alto tb....mas nunca tive muitos poréns com a altitude, costumo me sair bem mas sinto não posso dizer que é a mesma coisa que ESTAR à beirA MAR
Bruno Gelmi - Ro de Janeiro (17/02/2012 @ 07:06)
Bota, bota sim
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SobreAutor
Sérgio Xavier Filho já correu de tudo. Do cachorro, da mãe que o obrigava a fazer o dever de casa, dos colegas maiores. Depois aprendeu a correr melhor, vieram as meias, seis maratonas e outras provas malucas mundo afora. Aos 45 anos, dirige um núcleo de revistas da Editora Abril que tem Runner’s World, Placar, Quatro Rodas, Viagem e Turismo e Guias Quatro Rodas. Escreveu o "Operação Portuga", comenta na Bandnews FM e dedilha umas coisinhas pelo @sxrunners no Twitter.
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