A chegada Harry

      Harry Thomas Jr. é blogueiro, twiteiro, sócio do Webrun, um dos primeiros portais de corridas do mercado. É corredor, dos fortes. Já fez 17 maratonas, três delas abaixo de três horas. Tive a honra de ser seu companheiro de equipe no Desafio dos 600 k. No politicamente correto, Harry é deficiente auditivo. Na real, ele é completamente surdo. Passei quatro dias em sua companhia.
 
      A partir de agora, você tem a opção. Continua a ler esse texto ou parte para o espn.com.br e clica no portal 360. Se não é assinante do Terra, vai dar algum trabalho, é preciso fazer um cadastro para acessar os vídeos dos programas. Em "outros programas", a primeira matéria do "Vamos Correr" é o Harry. Vai valer a pena a trabalheira, garanto. Mas se quiser ler a continuação abaixo, vai dar no mesmo. Desconfio que no final você queira ver o vídeo do Harry e vá no final para a Espn.
 
      Pois bem. Não gosto da expressão "deficiente". Acaba revelando uma fragilidade quando geralmente ela esconde uma habilidade. Certa vez escrevi uma reportagem sobre futebol de cegos. A matéria mudou minha visão (não se desperdiça um trocadilho, nunca) sobre os sentidos. Ao ficar perplexo sobre a capacidade de 10 jogadores correrem numa quadra de futsal sem se baterem, pedi explicação ao Mizael, o Pelé dos cegos. Ele me desafiou. "Feche os olhos, quantos sons você escuta?". Respondi que uns quatro, o carro no fundo, uma sirene, sei lá. Ele disse que escutava quinze. Com aquelas referências sonoras, construia um cenário tridimensional no cérebro, quase tão preciso quanto o que meus olhos ajudavam a delinear. E assim ele enxergava.
 
     O Harry faz o contrário. Leitura labial de primeira, assim ele se vira. Claro, enfrenta obstáculos. Não pode falar ao telefone, se a pessoa que emite o som não estiver voltada para ele, babau. Ele se vira, com msn, email, e essa capacidade de enxergar os sons. Assim consegue exercer seu talento profissional. Por isso prefiro nomes claros para as coisas. Surdo, mudo, cego. Harry ficou surdo depois de adulto. Um mergulho na piscina, tímpano de um lado furado. Infecção no outro e o silêncio.
 
      Pois bem. Harry nos pegou nesse Desafio Nike pela vontade de viver. Contagiante. Ouvir uma piada de surdo por ele tem mais graça, garanto. Naquelas jornadas sem fim da corrida que passsávamos horas dentro da van, alguns conseguiam cochilar. Harry dormia feito um menino. O barulho das conversas definitivamente não o atrapalhava. E acordava ligado no 220. Impressionante. Sempre alegre, ele inventou a "chegada Harry", a expressão paga copyright para o Edu Elias da Espn. A cada trecho, Harry chegava beijando as tatuagens dos filhos nos punhos e comprimentando com tapinhas os companheiros e não companheiros. Todos, até os cronometristas, recebiam a distinção. Sempre correndo, claro.
 
      Em um dado momento, pensei na gritaria toda da corrida, as chegadas com muita gente incentivando "vamos lá, só falta um pouco", a algazarra. Para o Harry, isso é uma folha de papel em branco. Só vale o que ele vê, o que ele sente.
 
      Não falei do Harry nos posts anteriores da corrida porque ele merecia um post específico. Como viajei e perdi os programas da Espn, só hoje tive a chance de ver no site a reprise da reportagem no "Vamos Correr". O Edu Elias fez uma reportagem genial, inclusive com a recuperação de uma imagem da "chegada Harry". A matéria não tem truques, musiquinhas, apenas conta uma história que nos emocionou. Depois de minha experiência com Mizael e sua turma, aprendi um pouco mais com o professor Harry.  
17 Comentários:
Del Mastro - São Paulo (17/12/2009 @ 11:31)
Quero dar meus parabéns em público ao meu amigo Harry Thomas Jr. O conheci na faculdade, nesta época ele ainda não era surdo e nem corredor. Mas sempre foi um cara incrivel, sem sombras de dúvidas o mais inteligente e perspicaz do curso de mkt. Naquela época eu pedalava (ainda pedalo) e tentamos pedalar juntos, mas no fim o lance do Thomas era a corrida de resistencia mesmo. Este cara é especialista em transformar ameças em grandes oportunidades. Um forte abraços a todos.
elivan carneiro - joao pessoa pb (18/11/2009 @ 14:21)
Primeiro do que tudo gostaria de parabenizar a Nike pela criacao dos 600kms entre as cidades de Sp e Rj como tambem vai meus parabens a todos os participantes aproveito o ensejo para comunicar que as inscricoes para a Sao Silvestre estao se encerrando contatos www.saosilvestre.com.br. Atenciosamente Elivan(ultramaratonista de Bananeiras - Pb.
Luciano Costa Figueira - Santos (14/11/2009 @ 20:01)
Sérgio, não achei o vídeo na ESPN; você sabe a data da reportagem? Abs, Luciano
Sérgio Xavier - Runner's (14/11/2009 @ 10:37)
Errata, acabei de reler o que tinha escrito. "Comprimentando" deve ser confratenizar medindo os braços...
Sérgio Xavier - Runner's (14/11/2009 @ 10:34)
Para quem não sabe, na Nike cada corredor tinha um número de 1 a 10 correspondente aos trechos que iria correr. Os reservas homem e mulher tinham letras, X e Y. Nossa estratégia foi colocar os dois mais rápidos/resistentes como coringas (reservas). E no melhor estilo Speed Racer, Harry virou o nosso "Corredor X". A princípio, não me encanto com essas gincanas físicas que são as ultras e as maratonas sacanas como a Angostura. Mas quando vc falou da prova, Harry, tive impressão que ela deu um sorrisinho para mim. Não sei não, uma hora dessas... Já a Apa é do time dos malucos que disfarçam. Diz que vai trotar e sprinta no final.
Harry Thomas Jr - São Paulo (14/11/2009 @ 08:58)
Oi Capitão, estou em Villa la Angostura, que fica a uns 70km de Bariloche para correr daqui a duas horas minha 18ª maratona – a segunda trail run – e só consegui comentar seu post agora, alias, post não, e sim uma homenagem que sinceramente não sei se mereço. Mas que me deixou muito feliz por saber que “toco” as pessoas. Vou tentar canalizar esse momento e energia para o bem, fazendo o que nós mais gostamos: correr. E que no meu caso especifico é tudo, já que corro para viver e vivo para correr. Agradeço ainda as palavras da sua blogaiada. Obrigado. Essa maratona será dedicada ao Exercito Branceleone... Um forte abraço do Harry "X".
Apa - sp (14/11/2009 @ 01:33)
A piada que o Harry conta na ESPN, a do velhinho que pediu para atravessar a rua, é a favorita dele -- e a nossa. O Harry sem dúvida muda a nossa maneira de enxergar a corrida. O cara está na Argentina, foi correr malucos 42K! Sergio, me inclua fora desse grupo de malucos Brancaleones. O máximo que planejo é correr Floripa ano que vem -- e na sua equipe, rarara.
Nishi - São Paulo (13/11/2009 @ 20:01)
O Harry é foda. Hoje é fácil gostar de corrida, ser viciado em corrida. Em todo canto tem um. O duro era ser corredor e investir esforços em corrida na década de 80, 90... o Brasil era só São Silvestre! O Harry foi um dos caras que fez isso, abriu mão de muito conforto material por acreditar no esporte. Não surpreende que todos que gostam da corrida, que acreditam na corrida, que são "do bem" no mundo da corrida, gostem dele. Afinal ele é um cara que consegue gostar mais de corrida do que nós, simples viciados. Afinal, ele foi além. E venceu! E continua vencendo! Ligado no 220V!
Breno - Brasília (13/11/2009 @ 19:56)
Belo relato, Sérgio! Junto com o seu blog, o do Harry é o meu favorito...seus posts são para lá de espirituosos, ele capta como ninguém a verdadeira alma de um corredor. Não sabia de sua limitação na audição, mas com ctz ele desconta com muita carisma e dedicação! A partir de agora, ganhou ainda mais pontos de admiração. Abraços
Sérgio Xavier - Runner's (13/11/2009 @ 18:53)
Renata, de mão quebrada por imprudência grave com motocicleta, foi uma da turma na festa. Saulo, respondido. Faltou o próprio Harry no livro do Mário, certo Yara? Ontem fiquei achando que o Exército Brancaleone está perdendo a noção, ficando um tanto mascarado. Edu Elias querendo fazer 10 km em 45 minutos, ao natural. Fabio pensando em meia de 1h30. Yara, querendo barbarizar na Comrades curitibana. A Nike não fez bem à classe jornalística...
Saulo - Gurupi - TO - Gurupi - TO (13/11/2009 @ 16:51)
A história do Harry é mais uma que vem se acrescentar aos anais do mundo da corrida, onde a superação é a marca maior. E são histórias como essa que, como já afirmei, me motivam a correr mais e melhor. E, além disso, me mostram como meus problemas são pequenos. Ao invés de reclamar, devemos olhar a vida com otimismo, sempre enxergando o lado bom. Ah, e falando em reclamar, meu caro Sérgio, se vc me permite, voltando ao batido assunto da camiseta, já lhe enviei um e-mail. Se vc puder, encarecidamente, me dizer algo a respeito (neste blog ou por e-mail)... Sem querer forçar a barra, já estou reunindo assinaturas para fundar o MSL (Movimento dos Sem Laranjinha), o qual, no entanto, não receberá qualquer subvenção pública, como outros movimentos ditos sociais que existem por aí...
Saulo - Gurupi - TO (13/11/2009 @ 16:50)
A história do Harry é mais uma que vem se acrescentar aos anais do mundo da corrida, onde a superação é a marca maior. E são histórias como essa que, como já afirmei, me motivam a correr mais e melhor. E, além disso, me mostram como meus problemas são pequenos. Ao invés de reclamar, devemos olhar a vida com otimismo, sempre enxergando o lado bom. Ah, e falando em reclamar, meu caro Sérgio, se vc me permite, voltando ao batido assunto da camiseta, já lhe enviei um e-mail. Se vc puder, encarecidamente, me dizer algo a respeito (neste blog ou por e-mail)... Sem querer forçar a barra, já estou reunindo assinaturas para fundar o MSL (Movimento dos Sem Laranjinha), o qual, no entanto, não receberá qualquer subvenção pública, como outros movimentos ditos sociais que existem por aí...
Renata Tucunduva - São Paulo (13/11/2009 @ 16:20)
Sergio Show de bola o txt, show de bola o vídeo da ESPN, show de bola te encontrar ontem na Livraria da Vila e, ainda mais show de bola ainda, conhecer a laranjinha!!! Parabéns pelo desafio 600K, pela Maratona de NY. Agora te cuida, faça as fisioterapias direitinho e daqui 2 semanas nos vemos no Ibira, de laranjinha!!!
Yara Achôa - São Paulo (13/11/2009 @ 15:56)
Eu conheço o Harry pessoalmente - e tenho maior orgulho de dizer que sou amiga dele. Ele é tudo isso que vocês falaram e um pouco mais. Simplesmente adoro! Yara Achôa
Jussara - Uberaba (13/11/2009 @ 15:19)
Sérgio, merecidíssima homenagem! Não conheço pessoalmente o Harry (ainda, pois espero um dia ter esse prazer), mas o conheci virtualmente pelo seu odiado Twitter. E te digo que me impressionei. Atencioso, brincalhão, corredor que realmente inspira. Eu não tinha tido a oportunidade de ver a entrevista ao vivo. Logo no dia seguinte, quando fui correr com o grupo de corrida de sábado, um amigo, corredor experiente, comentou do programa, elogiando bastante. Passados uns dias, o Harry falou, pelo Twitter, da possibilidade de ver o programa pelo Terra, e foi isso que eu fiz. Simplesmente emocionante!!! Em um post em seu Blog, fechando a série do Desafio dos 600, Harry tinha dito da tristeza de ter "perdido". Em meu comentário eu disse o que repito a todos os que participaram do Desafio com os quais tenho a oportunidade de conversar virtualmente: só de terem completado os 600k, são todos vencedores (pode parecer clichê, mas nesse caso, é a mais pura realidade). E digo mais, no caso do Harry, ele é, por si, um vencedor! Algumas pessoas nos dão lições de como devemos encarar a vida, e o Harry certamente é uma dessas pessoas! Parabéns pelas homenagens rendidas, Sérgio!!!
xampa - rio de janeiro (13/11/2009 @ 14:49)
realmente, o harry é uma grande figura. ainda nao tive o prazer de conhece-lo pessoalmente. mas, estamos sempre trocando emails e twittadas. valeu !! ele é o cara.
Gustavo Duran - Brasilia - DF (13/11/2009 @ 14:45)
Show de bola. Não deixem de acessar ao vídeo. Baita incentivo.
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SobreAutor
Sérgio Xavier Filho tinha 42 anos e achava engraçada a coincidência númerica com os 42 quilômetros da maratona. Perdeu a piada e mais alguns fios de cabelo quando completou 43 anos. Desde novembro de 2008, acumula o comando da Placar e da Runner's World no Brasil. Já correu dezenas de 10 km, várias meias, quatro maratonas e um tantão de provas de revezamento.

Para 2010, promete fazer direitinho musculação e alongamento.
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