A Ferrari e o Chevette

Até gostaria de correr por correr. Seria relaxante, teria mais tempo para grandes pensamentos. Mas não é assim. Sou da tribo dos corredores competitivos. Um dia precisa ser melhor do que o outro. O tempo de hoje precisa ser mais baixo do que o de ontem. Inferno. Preciso me policiar nos treinos, quero apressar os longos, esgarçar os tiros, a luta constante para baixar meus tempos. É aquela anedota do sapo dando uma carona para o escorpião para cruzar o rio. No meio da travessia, “crã”! O escorpião picou o sapo. Já submergindo, o sapo pergunta o porquê daquela picada que mataria os dois. “É da minha natureza”, respondeu o escorpião.
É da minha (e de tantos mais) natureza querer correr mais rápido e quebrar meus próprios recordes. É isso que me tira da cama todos os dias, mesmo sabendo que poderia ser menos competitivo.
Neste domingo, experimentei uma corrida diferente. Fui correr os 12,5 km da Corpore em São Paulo com a missão de ser lento. Muito lento. O objetivo do dia era acompanhar minha mulher Eliane em seus primeiros 12,5 km. Há um ano e meio, ela não corria nada. Nada mesmo. Nem 100 metros. Gostava de caminhar e mais nada. Acabei a convencendo dos benefícios da corrida. A melhora do fôlego, a possibilidade de comer sem culpa, a melhor forma física. Inventei uma planilha maluca para ela (tenho casos de charlatanismos na família, outro dia conto sobre isso) e fixamos um objetivo modesto para a maioria e grandioso para ela: correr 5,5 km da corrida de Natal no Ibirapuera. Deu certo, um sucesso, em poucos meses ela era uma corredora. Segui fazendo planilhas tabajara para ela (ainda bem que nenhum técnico lê esse blog, eu seria processado, com certeza), ela foi aumentando as distâncias. Um dia a desafiei para seus primeiros 10 km. Ela achou loucura, mas topou. Terminou esbaforida, mas feliz. Três treinos de corrida, duas aulas de pilates e uma sessão de musculação por semana. Nem sempre ela cumpria a rotina semanal, mas ia treinando. Sem lesões.  Faz um mês, falei de 12,5 km, achando que não iria aceitar. Gostou da idéia, ainda que apavorada. Achei que não iria dar certo. Faltava rodagem para ela terminar sem sofrimento. Imaginei caminhadas ao final da prova.
Acordamos indecentemente cedo para um domingo. Cinco e meia da manhã para chegar na USP, estacionar o carro, pegar o kit e largar sem atropelo às 7h30. O friozinho de uns 13 graus castigou antes da largada, depois foi providencial. Meu GPS nunca foi tão útil. Tenho razoável sensibilidade para saber se estou a 4,30 ou 5 minutos por quilômetro. Consigo até perceber sutilezas de 10 segundos por minuto. Depois de 6 minutos por quilômetro, porém, é tudo igual. Pela simples razão que meu trote não passa muito disso, rodo pouco nessa velocidade para saber medi-la.
O GPS ajudou muito no domingo. Eliane ensaiava correr abaixo de 7 minutos por quilômetro e eu logo segurava o ritmo. O importante era chegar com dignidade, seus primeiros 12,5 km. Parece um pouquinho mais do que um 10 km tradicional, falsa impressão. Qualquer coisa acima de 10 km é ultramaratona para quem está começando. São míseros dois quilometrinhos e meio a mais, só que quem faz 10 km está perto do limite. Acredite, 12,5 está mais para meia-maratona do que para os 10 km.
E assim fomos. Firmes e constantes nos 7,15 minutos por quilômetro. Falei um bocado, muita história. Tive que apertar forte a bexiga para não deixá-la sozinha. Achei que se desse um pipe-stop, ela podia perder o ritmo até que eu a encontrasse de novo.  No quilômetro 9, percebi que a fala dela não estava ofegante. Ela estava bem mesmo. No 10, liberei a velocidade. “Chegamos. Agora pode acelerar se quiser, são só dois quilômetros”. E ela apertou o ritmo para seis e pouco por minuto, nos últimos 200 metros deu um sprint impressionante. Chegou a 4,53 por km na linha de chegada, se meu GPS não virou Pinóquio.
A cara dela era de felicidade pura. Que cansaço, que nada. Eliane nunca se viu correndo, nunca achou que fosse capaz de 12,5 km. Mas espantoso mesmo foi a minha sensação. De repente, me flagrei com uma sensação de vitória semelhante aos meus melhores 10 km, à minha melhor maratona. Como um bicho competitivo como eu poderia vibrar com um tempo superior a 1h30 para meros 12,5 km? Pois é, difícil explicar, mas é verdade. Virei um chevettinho de dois cilindros só com a segunda marcha. Mas um chevettinho feliz. Foto: www.corpore.org.br

20 Comentários:
Gerrit - São Paulo (27/05/2009 @ 15:26)
Parabéns Eliane, parabéns Sergio! Que legal quando vocês dois juntos podem curtir esta corrida. No texto tem outras coisas interessantes. As vezes me pergunto: "Quem é o Chevette, e quem é o Ferrari?". Hoje, depois de muito treino, corro 10K em 43, e pergunto para o cara que corre em 38 minutos "Como é que você consegue?". Ele por sua vez, pergunta para o cara que corre em 32 minutos "Como é seu treino?". E este "Ferrari" de 32 minutos, quebra a cabeça, porque treina feito um cavalo, mas mesmo assim nem chega perto do recorde mundial ... e se pergunto ... o que falta eu fazer? O engraçado também é que as vezes cansa mais correr devagar do que rápido. Correndo devagar o tempo não passa, demora demais para passar de um marcador para outro. Isto desestimula, e consequentemente aumenta a sensação de cansaço.
Eliane Coelho - São Paulo (27/05/2009 @ 00:22)
Pois é...quem diria? A sensação de ter conseguido correr os 12,5km foi maravilhosa mesmo, de me superar. Melhor ainda quando o treinador, mesmo tabajara como o meu, reduz a marcha para ficar ali ao lado, dando a maior força no percurso! Dá realmente vontade de correr muito mais!! Pura felicidade!!
Eliane Coelho - São Paulo - São Paulo - São Paulo (27/05/2009 @ 00:08)
Pois é...quem diria? A sensação de ter conseguido correr os 12,5km é maravilhosa mesmo, de se superar. Mas o treinador, mesmo tabajara como o meu, faz toda a diferença, principalmente quando reduz a marcha para ficar ali ao lado, dando a maior força. Dá realmente para correr muito mais!! Estimulo na hora certa é tudo!
Eliane Coelho - São Paulo - São Paulo (27/05/2009 @ 00:07)
Pois é...quem diria? A sensação de ter conseguido correr os 12,5km é maravilhosa mesmo, de se superar. Mas o treinador, mesmo tabajara como o meu, faz toda a diferença, principalmente quando reduz a marcha para ficar ali ao lado, dando a maior força. Dá realmente para correr muito mais!! Estimulo na hora certa é tudo!
Eliane Coelho - São Paulo (27/05/2009 @ 00:06)
Pois é...quem diria? A sensação de ter conseguido correr os 12,5km é maravilhosa mesmo, de se superar. Mas o treinador, mesmo tabajara como o meu, faz toda a diferença, principalmente quando reduz a marcha para ficar ali ao lado, dando a maior força. Dá realmente para correr muito mais!! Estimulo na hora certa é tudo!
Andreia Pereira - Rio de Janeiro (26/05/2009 @ 23:36)
Sergio!!!! Que texto gostoso!!!! E me senti dentro dele. Já corro há uns 2 anos e comecei achando que um dia ia acompanhar meu namorado.Hoje corro mais do que ele. Mas eu já no começo participava de provas de rua ... ele nunca havia participado. A primeira foi a Fila Night Run que aqui no RJ é metade na areia da praia/metade no asfalto. É um grande barato! A companhia dele foi maravilhosa e acabei baixando meu tempo nessa prova. Depois fizemos a Super 40 ... eu corri duas vezes e ele uma. Foi muito legal!!!! Como foi revezamento fiquei esperando por ele na tenda mais ansiosa do que nunca. E foi maravilhoso olhar ele chegando todo ofegante mas com expressão de missão cumprida no rosto. Agora estou treinando para a meia do RJ ... nessa ele só me acompanha no apoio ... por enquanto ... rs PARABÉNS para sua esposa!!!!!! E para vc ... marido e "treinador" ...
Paulo F. Figueiredo - São Paulo/SP (26/05/2009 @ 21:43)
Sérgio,Parabéns pelo texto. Minha esposa ainda não corre, porém é uma grande companheira nas maratonas internacionais. Com relação a prova, foi um das corridas mais prazeirosas que fiz pois reuni alguns amigos e fizemos os 25KM em ritmo de treino. Uma delícia. Durante exatas 2 horas e 29 minutos conversamos sobre os mais variados assuntos e nos divertimos o percurso todo. E olha que foram 2 voltas iguais. Ao final tivemos o prazer de cruzar o tapete em 5 cooredores alinhados e ao mesmo tempo, com direito a várias fotos dos sites de corridas.Muito Bom ! E domingo tem mais 25 KM...Abraços
Armando Santos - São Paulo (26/05/2009 @ 17:02)
Para variar você Sergio Xavier sempre nos surpreende com a forma fantástica com que escreve os diversos assuntos sobre a nossa amiga corrida. Mais uma vez você brilhante em relatar esta sua emoção em correr os 12,5km com sua esposa. Eu acho que muitos maridos sofrerão a influencias de suas palavras e começarão a treinar suas senhoras. Eu já estou pensando nisto. Parabéns Armando Santos
Saulo - Gurupi - TO (26/05/2009 @ 16:46)
Sérgio, parabéns pela vitória compartilhada com sua esposa. Quanto ao fato de ser competitivo, tenho para mim que se trata de uma característica saudável. Somos seres humanos e precisamos de desafios. São eles que nos motivam a querer melhorar cada vez mais. A vida perde o colorido quando não temos limites a serem ultrapassados. E, para nós que corremos, cada vez que calçamos os tênis um desafio se nos apresenta. É isso que faz da corrida um esporte SENSACIONAL!
Rosana Lima - Salvador (26/05/2009 @ 16:26)
Temos uma loja em Salvador na Bahia, gostaríamos de obter o contato para possível revenda do produto CHAFE FREE, da Asics em nossa loja. O produto foi divulgado na edição de fevereiro 2009 da Revista Runners World.
Paula - Limeira - SP (26/05/2009 @ 12:04)
Grande Sérgio!!! Parabéns pra esposa que conseguiu e pra vc q acompanhou!! Eu já passei por isso, mas do lado oposto... O marido me acompanhou na minha primeira prova de 10k. Fiz em 1h16m e ele ficou o tempo todo do meu lado... Deve ser mto chato pra vcs mesmo ter q diminuir o ritmo pra acompanhar a gente... mas pode ter certeza de uma coisa... se vcs ficam felizes de nos ver terminando a prova... a gente fica mto mais em saber q podemos contar com vcs!! Agora a gente já corre separado.. cada um faz seu ritmo, seu tempo... mas sempre esperamos o outro chegar... Compartilhar nossa felicidade é mto bom...
Augusto - vamoscorrendo.wordpress.com - Piracicaba - SP (26/05/2009 @ 11:18)
É isso aí Sério, dá os parabéns para sua esposa! Mas no fundo acho que o grande vencedor mesmo foi vc. Pra quem é tão competitivo ter que correr "devagar" não deve ter sido nada fácil. Acredito que a sua briga para tirar o pé do acelerador era muito maior do que a da sua esposa pra afundar o pé nele. Quem sabe essa corrida não serviu pra vc ser mais obediente durante os treinos e não apressar os longos, esgarçar os tiros... E vamos correndo!
Filipe Costa - Porto Alegre (26/05/2009 @ 11:01)
Grande inspiração para teu irmão! Se a minha cunhada já é um Chevette, estou mais para um Lada que frequenta a oficina.... Mas o estímulo percorre distâncias e me empurra para essa loucura que é correr. Quem sabe em julho não fazemos uma "corrida maluca" no Ibirapuera? Devo ser o Dick Vigarista que acaba sempre em último, mas tudo bem.... Abraços
Marcel Pracidelle - São Paulo (26/05/2009 @ 10:21)
Fala Sérgio... Estou passando pelo mesmo que vc, sou muito competitivo, eu não "corro", eu treino, quero sempre melhorar e estou conseguindo arrastar minha esposa para a corrida, ela começou caminhando e hoje já sustenta uns 30,35 minutos de corrida leve (leve para mim...) na sexta, eu iria somente trotar, já que no domingo iria para os 25km da corpore, ela então pediu para que eu corresse com ela, , eram 10 minutos de caminhada forte, 30 de corrida e mais 10 de caminhada leve... Foi realmente estranho correr em 1km/7:30min. até achei que cansa um pouco, pq o movimento parece que fica pouco natural, sei lá, mas a alegria dela ao fim do treino valeu muito... ela já fez 4,3km da Graac em 33min e tem mais uma de 5km, a ecorun em 07/06, no dia 28/06, enquanto farei a meia do Rio ela vai para a family run, 6km... o sonho dela era correr uma prova de 5km inteira, achava que nunca conseguiria mais do que isso, hoje, já diz que pretende fazer uma meia-maratona em 2011 e me pergunta se eu acho que ela consegue. Eu sempre digo que sim e com certeza, nesse dia, deixarei meu espírito competitivo para trás e correrei o tempo todo ao lado dela... Com certeza vou fazê-la ler este seu blog de hoje!!!
Ricardo Macedo - Sumaré (26/05/2009 @ 09:28)
Grande Sérgio. Acho que esse feito seu deve ser algo parecido como completar a nossa primeira prova. Ainda mais, pois você se sentiria responsável por um possivel fracasso de sua mulher. Como o resultado foi o contrário, SUCESSO, você também sentiu que isso tinha sido atingido grande parte por sua dedicação. Parabéns para vocês e se ainda tiver esta planilha Tabajara que usou, se puder, me envie e tentarei fazer com que minha mulher comece a correr. Deve ser muito legal completar uma prova juntos. Abraço
Ricardo Macedo - Sumaré (26/05/2009 @ 09:27)
Grande Sérgio. Acho que esse feito seu deve ser algo parecido como completar a nossa primeira prova. Ainda mais, pois você se sentiria responsável por um possivel fracasso de sua mulher. Como o resultado foi o contrário, SUCESSO, você também sentiu que isso tinha sido atingido grande parte por sua dedicação. Parabéns para vocês e se ainda tiver esta planilha Tabajara que usou, se puder, me envie e tentarei fazer com que minha mulher comece a correr. Deve ser muito legal completar uma prova juntos. Abraço
Ricardo Macedo - Sumaré (26/05/2009 @ 09:27)
Grande Sérgio. Acho que esse feito seu deve ser algo parecido como completar a nossa primeira prova. Ainda mais, pois você se sentiria responsável por um possivel fracasso de sua mulher. Como o resultado foi o contrário, SUCESSO, você também sentiu que isso tinha sido atingido grande parte por sua dedicação. Parabéns para vocês e se ainda tiver esta planilha Tabajara que usou, se puder, me envie e tentarei fazer com que minha mulher comece a correr. Deve ser muito legal completar uma prova juntos. Abraço
Felipe Vianna - Rio de Janeiro (26/05/2009 @ 09:08)
Fala Sérgio!!! Você teve a sensação que um treinador tem qdo vê seu aluno alcançar um objetivo. É legal ver uma pessoa que a gente ajudou se superando e completando suas marcas. De vez em quando consigo arrastar minha namorada pra uns treininhos, ela aguentaria tranquilamente correr 5 km. Mas só de ouvir a palavra corrida ela já fica um pouco assustada. Em breve esse pé atrás passa, espero. Abs,
Marcelo Terraza - Brasilia - Brasilia - Brasilia (26/05/2009 @ 08:58)
Sergio, essa coluna eh a minha cara, soh difere q eu ainda nao consegui convencer a minha mulher a fazer o q a sua estah fazendo, como consigo isso, qual a solucao? Ela caminha muito raramente, mas nao suporta correr, e eu, ao contrario, nao suporto caminhar e adoro correr sempre com vontade de bater meus recordes pessoais. Me da a dica certa ... hehehe. abs, m.
Fábio Melo - Piracicaba (26/05/2009 @ 08:32)
Salve, Sérgio. Parabens a você e, sobretudo, a sua senhora pelo feito!! Bom, acho que sou tão psicólogo quanto vc é preparador físico (rsrs...), então, vou arriscar um palpite: Vc competiu e muito nessa prova, só que seu desafio não era a velocidade mas, sim, ter a certeza que faria tudo para sua pernametade terminar a prova. E vc conseguiu, por isso se sentiu bem ao final. Vou usar essa história para tentar inspirar a minha "dona onça". Mais uma vez: Parabens ao casal. Boas corridas a todos, seja sozinho na Ferrari ou acompanhado no Chevette.
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SobreAutor
Sérgio Xavier Filho tinha 42 anos e achava engraçada a coincidência númerica com os 42 quilômetros da maratona. Perdeu a piada e mais alguns fios de cabelo quando completou 43 anos. Desde novembro de 2008, acumula o comando da Placar e da Runner's World no Brasil. Já correu dezenas de 10 km, várias meias, quatro maratonas e um tantão de provas de revezamento.

Para 2010, promete fazer direitinho musculação e alongamento.
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