
Os sanduiches de miga – tão argentinos, tão uruguaios – estão no centro da mesa. É sábado, e apesar da fria chuva lá fora lembrando um inverno porteño, estamos no Brasil. Em Porto Alegre, na mesma Avenida Protásio Alves que vivi um quarto da minha vida.
Trata-se de uma visita à uma amiga. Companheira de faculdade, Thais dividiu comigo apartamento em São Paulo nos anos 90. Voltou a Porto Alegre, virou professora, constituiu família, teve um garoto da idade do meu. Lucas, estudante de cinema, inquieto, inteligente, raro.
Há duas semanas recebi uma lacônica mensagem no meu telefone. De Lúcia, também da turma da faculdade. Quatro palavras que me destruíram: Lucas, atropelado, ônibus, coma. Numa manhã de sol, Lucas saiu de casa. Na confusa faixa de segurança da Protásio, não percebeu o ônibus que vinha pelo corredor. Pancada. Thais recebeu o telefonema a tempo de olhar pela janela e ver a avenida toda parada. Desceu correndo e ainda conseguiu embarcar na mesma ambulância do filho.
O estrago parecia mínimo. Nenhuma fratura, dois arranhões. Mas traumatismo craniano e coma. Thaís perguntou ao médico se havia a chance do filho sobreviver e voltar a ser o que era. A resposta foi dura, preparação para o pior. O doutor não tinha nenhuma resposta que a mãe quisesse ouvir.
Dez dias mais tarde, lá estava eu com o café posto na mesa. Com Thais, amigos e parentes. E com Lucas. Sorridente, com a namorada ao lado, ele contava que para ele o coma não passou de um sonho. Um sonho demorado, mas um sonho. Para a família, o maior de todos os pesadelos. Menos de 48 horas após o acidente, acordou. Apagou da memória os minutos anteriores ao atropelamento, e voltou. Passei uma hora na mesa conversando, mordiscando sanduiches de miga, maquinando piadas, rindo. Antes tinha encontrado Giba, professor de cinema de Lucas. Que brincou cobrando um trabalho atrasado. “E que não venha dizer que atrasou porque foi atropelado por um ônibus, essa conversinha não cola”.
Não me lembro de ter passado hora tão feliz nos últimos anos. Foi como se uma vida tivesse sido arrancada e logo após devolvida. Opa, desculpe, não era ele, não.
Sérgio Xavier Filho já correu de tudo. Do cachorro, da mãe que o obrigava a fazer o dever de casa, dos colegas maiores. Depois aprendeu a correr melhor, vieram as meias, seis maratonas e outras provas malucas mundo afora. Aos 45 anos, dirige um núcleo de revistas da Editora Abril que tem Runner’s World, Placar, Quatro Rodas, Viagem e Turismo e Guias Quatro Rodas. Escreveu o "Operação Portuga", comenta na Bandnews FM e dedilha umas coisinhas pelo @sxrunners no Twitter.
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