
De tudo, o que ficou de mais impressionante da corrida do Atacama foi o trecho que fiz entre o km 8 e o km 13. Em um grande cânion, um caminho natural se formou no Vale da Lua. Por ali a corrida passou. Paredões gigantes dos dois lados, a cada curva o cenário apresentava uma outra formação. Lindo demais.
No dia seguinte da prova, queria levar minha família para aquele lugar batizado de Quebrada de Kari. Fomos a uma agência, entramos no ônibus e vimos belas paisagens no Vale da Lua e da Morte. Lugares que não tinha conhecido na prova, mas nada da minha quebrada. Decepção.
Não ia ficar assim. No outro dia, peguei a petizada (minha mulher, com fratura por estresse, ficou de fora) e alugamos bicicletas. Excelentes, aliás, ao contrário das bikes que se aluga por aqui. Eram oito quilômetros de pedal até a quebrada. No final de tarde tudo ia bem até o quilômetro 6 quando um gêiser estourou atrás de mim. Nossa, um gêiser aqui no Vale da Lua, pensei. Foi a Nina quem me trouxe à realidade. “Pai, estourou o seu pneu de trás”.
Não era possível, faltavam dois quilômetros para chegar, a tarde caía, o frio viria logo depois e eu com um pneu furado sem estepe. Roubada de Kari, amaldiçoei. E pensei. Sou um pai decente um rato do deserto? Empurrei a bicicleta por uns 500 metros até encontrar uma placa. Amarrei a danada com o cadeado alugado e iniciei um treininho improvisado. Fui correndo ao lado do Filipe e da Nina até a quebrada.
Não tinha ninguém. Eles pedalaram até um desnível maior e a partir dali fomos os três caminhando e vendo as formações. Chegamos até uma caverna, um passeio inesquecível. Voltei correndo, peguei a bicicleta e a empurrei até a entrada do parque do Vale da Lua. De lá liguei para a agência e abandonei a “mardita”. Voltei correndo com as crianças. Uns 12 km no total em um ritmo até forte dois dias após a meia-maratona. Nenhuma planilha aprovaria o treino. Outro daqueles que ficará na galeria dos mais legais já feitos.
Sérgio Xavier Filho já correu de tudo. Do cachorro, da mãe que o obrigava a fazer o dever de casa, dos colegas maiores. Depois aprendeu a correr melhor, vieram as meias, seis maratonas e outras provas malucas mundo afora. Aos 45 anos, dirige um núcleo de revistas da Editora Abril que tem Runner’s World, Placar, Quatro Rodas, Viagem e Turismo e Guias Quatro Rodas. Escreveu o "Operação Portuga", comenta na Bandnews FM e dedilha umas coisinhas pelo @sxrunners no Twitter.
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