
Trabalhamos juntos por alguns meses, entre 2003 e 2004. Naquela época, eu estava mais preocupado com o futebol de quarta-feira que com a corrida, e não tinha a exata dimensão de quão sem-noção o cara da sala ao lado era. Na edição de maio da revista impressa, o “Gente que Corre” foi com ele. Um amador com cabeça e marcas de profissional. Aqui vai o texto inteiro, sem edições, com histórias que não couberam na revista.
Nos treinos de tiro, o frequencímetro recebe adicional de insalubridade. O pulso do dono chega a 206 na pista do Clube Pinheiros, em São Paulo, durante as seis repetições de 1km, cada qual em 2’56”. Clara evolução em relação ao moleque que, aos 15 anos, trotava no Parque do Ibirapuera e não conseguia passar dos 3km. “Via o Sol nascendo, me dava um troço e eu saía correndo, simplesmente porque eu gostava. Não queria necessariamente ser atleta. Corria porque eu gostava de correr.” Foi numa dessas corridas descompromissadas que Antonio Manssur Filho foi descoberto pelo técnico Mauro Neuber, da equipe Troiana.
Dois anos mais tarde, em 1987, estreava na maratona. “Não me lembro do tempo que fiz, mas terminei cheio de cãibras. Senti tanta fome durante a corrida que arranquei um pacote de salgadinhos Ebicen de uma menininha da torcida e enfiei tudo na boca de uma vez.”
Em 89, o futuro Tenente Manssur percorreria mais de 4km para bater o recorde do teste de 12 minutos do Exército. Os treinos começavam a ficar mais sérios e voltados para o triathlon, sob supervisão do técnico Luís Gandolfo. “Às 5h eu já estava nadando no Pinheiros. Passava o dia no quartel e, no final da tarde, pedalava na USP. À noite ainda tinha que ir para a faculdade de Direito, no Largo de São Francisco.”
O sacrifício valeu a vaga para, no ano seguinte, representar o Brasil no mundial junior de triathlon. Era a primeira das convocações para a seleção brasileira, que culminariam com a ida para os Jogos Panamericanos de 1995, em Mar Del Plata. O bom jogo de equipe ajudou Leandro Macedo, o melhor triatleta brasileiro da história, a ficar com o ouro. Em 2009, Manssur foi campeão mundial de short triathlon (750m de natação, 20km de bicicleta e 5km de corrida), na categoria de 35 a 39 anos.
Quando a bicicleta sai da jogada, as performances são ainda mais impressionantes. Em 1990, Mike Pigg, à época um dos melhores triatletas do mundo, disputou, no Clube Pinheiros, uma prova com 500m de natação e 3km de corrida. Faltando 1km para a chegada, Manssur ultrapassou Pigg e liderou a prova até os metros finais. Acabou perdendo por menos de um segundo. A frustração foi desfeita em 9/9/09, na Austrália, com a conquista do campeonato mundial de aquathlon (2,5km de corrida, 500m de natação e 2,5km de corrida). Antes, Manssur já havia sido vice mundial por dois anos consecutivos.
Aos 41 anos, calcula que tenha mais de 500 provas no currículo e que seja o triatleta que mais competiu em território nacional, na categoria elite. Mas nunca fez do esporte meio de vida. “Quando comecei, a modalidade era muito nova e não havia tanto apoio de patrocinadores. Acabaria vivendo um ‘run for food’ e não tive coragem de largar tudo para ficar só no triathlon.”
Profissional da área jurídica, casado e pai de dois filhos, a maneira que Manssur encontrou para encaixar a rotina de treinos no dia-a-dia é reduzir o tempo perdido com deslocamentos. Os treinos de bicicleta, corrida e natação acabam concentrados na parte da manhã e feitos no clube, sob orientação geral de Rodrigo Taddei, com Cláudio Castilho como treinador de corrida e André “Amendoim” como técnico de natação.
Entre 94 e 98, quando era treinado por Marcos Paulo Reis, a maioria dos treinos de pedal e corrida era feita nos arredores do Jóquei Clube paulistano. Lá que aconteceram as melhores histórias desses 25 anos de esporte. “Uma vez, uns ladrões, fugindo da polícia, enfiaram o carro no muro do Jóquei, entre dois pelotões de atletas; só dava gente pulando e tentando se safar dos estilhaços. Num outro dia, correndo na chuva, tropecei na guia e fiquei estatelado no asfalto; acabei socorrido por um dos vários travestis que faziam ponto no local. Aliás, era um travesti que apelidamos de Pamela Anderson quem nos avisava quando o Marcos Paulo chegava para nos dar treino, dizendo ‘Ó, o careca já tá ali!’”
Quando o treino de corrida é forte, dá-lhe pista do Pinheiros. E junto com a equipe de atletismo profissional do clube. “Gosto de sofrer correndo. Sofrimento é o âmago do negócio. Às vezes quero correr na pior condição possível. Subidas, tempo quente, depois de pedalar. O sofrimento faz o atleta respeitar a corrida e se conhecer melhor. De vez em quando, estou no meio do tiro e não sinto meu corpo, como se não fosse eu ali. Há um estágio superior, um transe, que se adquire depois de uma certa dose de sofrimento.” Por “certa dose de sofrimento”, entenda fazer 5.000m em 14:49, 10.000m em 30:32 e meia maratona em 1h10’.
Para Manssur, a fórmula da longevidade em alto nível é treinar com constância e consciência para evitar lesões. Foi seguindo essas regras que, hoje, compete contra filhos de alguns de seus antigos adversários. Ele sabe que, mais dia, menos dia, o tempo vai cobrar a fatura e reduzir seu rendimento. Mas a mentalidade nunca vai deixar de ser de atleta “Treinar faz parte da minha vida. Não fico o dia inteiro pensando nisso, mas sou isso. Não me vejo fazendo outra coisa. Não me preocupo mais em ganhar ou perder. Lógico que quero ganhar e, se precisar morder, vou morder. Mas eu quero mesmo é estar na prova. Quero acordar e treinar. Quero ter uma vida de atleta. Sinto-me atleta.”
Iberê de Castro Dias escreve a coluna "Senta a Bota!" na edição
brasileira da revista Runner's World. "É devagar e sempre.
Mais sempre que devagar."
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