Bicho de pé

Nenhum corredor no mundo conhece as ruas como Ana Luiza Garcez, a Animal — que passou 20 anos vivendo nelas

Por Julia Zanolli e Maurício Barros

Onde Ana Luiza Garcez poderia ter chegado se tivesse tido uma infância e uma adolescência dignas? Se não tivesse seu físico violentado pelo álcool, pelas drogas, pela desgraça? Se alguém tivesse descoberto seu talento para a corrida mais cedo, até onde teria ido Ana Luiza Garcez? Perguntamos isso a seu treinador, Wanderlei de Oliveira, que não titubeia: "Seria uma atleta de nível internacional, entre as melhores. Se com tudo isso ela corre do jeito que corre, imagina se tivesse treinado direito...".

Pois Ana começou a correr aos 36 anos e, hoje, aos 46, é capaz de vencer provas difíceis entre veteranos, e estar entre as melhores corredoras mesmo na categoria geral. Com 1,52m de altura e 44 kg, Ana é uma força da natureza. Nessa reportagem, encontramos a Animal, como ela é conhecida, algumas vezes. A velocidade e a lógica caótica com que narra os fatos de sua vida deixam o interlocutor meio tonto. É preciso repetir perguntas, questionar datas, nomes, histórias. Mesmo assim, fica a dúvida se todas as coisas que ela diz que viveu de fato aconteceram, ou se só ocorreram em seus pensamentos, muitas vezes turbinados pelo sofrimento e pelo alento químico. Como saber?



É preciso conversar um bom tempo com Ana para descobrir que tipo de Animal está na nossa frente. Com seu jeito de rapper inquieto, ela se levanta e gesticula, para narrar com sangue nos olhos o momento em que reencontrou, já adulta, a mãe que ela diz tê-la abandonado quando era bebê. “Não quero te ver na minha frente, você não é minha mãe coisa nenhuma”, diz, apontando o indicador para um interlocutor imaginário. A representação impressiona, estamos vendo a cena. Essa é a Animal, a personagem do mundo das corridas, que viveu quase 20 anos nas ruas onde corre.

Mas, em dois momentos, uma outra figura aparece na frente dos repórteres da RUNNER’S WORLD. No primeiro, quando se lembra da última viagem que fez a Miami, no início do ano. Ela conta que viu um mendigo na rua revirando o lixo, e decidiu dar-lhe o sanduíche que comia. Ele recusou. “Mendigo é assim: tem medo de que a comida que estão dando seja envenenada. Prefere pegar do lixo”. Imediatamente, Ana desaba em um choro surdo, que cobre com as mãos para não mostrar. O outro momento acontece quando fala de Celso. “Ele era loiro, lindo”, diz, sobre o travesti dono de uma boate no centro de São Paulo que, segundo ela, a ajudou muito. “Ele cuidava de mim”, garante.

Ana conta que viveu um tempo na casa de Celso, na Bahia, para onde ele foi quando disse estar com Aids. “Fui junto para ajudar”. Após sua morte, Ana voltou às ruas de São Paulo. Perguntamos se o sentimento que ela tinha por Celso pode ser chamado de amor. Ela responde que sim. E se esconde, de novo, para chorar. Essa é a Ana.

Nunca ouviu falar dela? Bem, a gente apresenta a Ana para você. Ou parte dela, porque é impossível conhecê-la por inteiro.

Alô, polícia!

Marcas da Animal


Prova de 3000m

10min47s

Prova de 5000m

18min50s

Prova de 10000m

39min10s

Prova de 15km

1h02min12s (São Silvestre 2003)

Prova de 21km

1h22 (Buenos Aires 2004)


Próximas missões

Quer ver a Ana em ação? Veja suas próximas corridas


Dia 23 de agosto

10 km Duque de Caxias - CORPORE - Ibirapuera

Dia 5 de setembro

Meia Maratona Internacional do Rio de Janeiro

Dia 31 de outubro

5 km Meeting RUN FOR LIFE - Parque do Ibirapuera

Dia 15 de novembro

21.1 km Fort Lauderdale - Florida - Estados Unidos

"Levanta esses braços! Corrige essa postura!". A policial obedece de imediato às ordens ditas aos berros por quem ali tem autoridade de coronel. Outras três PMs também vão ouvindo comandos: “Força! Respira! Já tá chegando!”. A dona da voz é Ana Luiza Garcez, que auxilia o técnico Wanderlei de Oliveira, da assessoria Run for Life, no treinamento das quatro policiais na pista do Complexo Esportivo Constâncio Vaz Guimarães, em São Paulo.

As tenentes Ana Maria Adriano, Patrícia de Cássia dos Santos e Maria Aparecida Moraes e a soldado Luciana Adriano querem correr a São Silvestre no último dia do ano. Por isso estão ali, naquela noite congelante de julho, iniciando a longa preparação. Pelo que suam para completar o teste de 3 000 metros que avalia a condição de cada uma, vão precisar de muito mais que os incentivos de Ana para não fraquejar. Mas se o que lhes faltava era puramente inspiração, escolheram o lugar certo — o lugar onde podem ver, ouvir e receber o apoio de Ana Luiza Garcez. Não é exagero dizer que Ana, 46 anos, é o mais notável personagem do universo de corridas de rua do Brasil.

Ao logo da carreira de corredora, que começou aos 36 anos de idade, Ana Garcez acumula resultados expressivos. Na categoria máster (a partir de 40 anos), é recordista brasileira nos 800, 1500 e 5000 metros. Foi campeã de sua categoria na São Silvestre de 2003, vice-campeã geral da Meia maratona de Buenos Aires (Argentina) em 2004, com seu melhor tempo nos 21 km: 1h22. Também foi a campeã geral da Meia maratona de Santiago, do Chile, em 2006.

Em 2007, Ana correu pela primeira vez a meia maratona da Disney e acabou deixando o título de campeã máster escapar pouco depois da entrada no parque “Magic Kingdom”. Seus treinadores contam que Animal ficou emocionada ao ver os personagens dos desenhos e demorou um pouco a voltar ao ritmo. Mas, mesmo assim, foi campeã da sua categoria. Entre suas façanhas, estão a conquista de duas meias maratonas em 2009, a da Disney e a de Miami, ambas nos Estados Unidos. Com apenas 15 dias de distância entre as provas, ela foi a vencedora na categoria máster e 4ª colocada no geral da prova de Miami.

Ok, você poderia fazer uma lista de atletas brasileiros que têm no currículo glórias mais significativas que essas. Mas as conquistas de Ana ganham tons dourados quando consideramos que ela viveu até os 18 anos em uma instituição administrada pela antiga FEBEM (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor). E que depois passou mais cerca de 18 anos nas ruas de São Paulo mantendo o que se pode chamar de “sobrevida” — vagueando pelo centro da cidade sob efeito de álcool e, como ela diz, "todas as drogas que você pode imaginar, já que eu tomava de tudo". Ana afirma que durante esse período roubou, apanhou da polícia, sofreu tentativas de estupro. Mas sobreviveu. E graças à corrida.

Nas ruas

Ao lembrar-se do que passou, Ana se levanta, gesticula, interpreta as falas. Sua voz tem um tom grave. É desse modo que ela narra sua história, que começa quando diz ter foi um bebê abandonado pela mãe. Isso a levou, ao lado da irmã, a viver como interna na instituição de menores até atingir os 18 anos. Depois disso, foi trabalhar na casa de uma família no Morumbi como empregada doméstica. Ela afirma que não recebia salário e que trabalhava em troca de comida e teto. “Parece que eu ouvia uma voz falando para eu roubar”. Ana acabou cedendo à voz e diz que, um dia, encheu três malas com coisas da patroa e fugiu. Foi parar na praça da República, no centro de São Paulo. O ano era 1980. Lá, conheceu os meninos de rua que virariam sua família. E o ingresso no grupo foi a distribuição dos bens surrupiados do antigo emprego. Ana conta que foi nessa época que começou a usar drogas e a praticar pequenos furtos. E, assim, viveria por mais duas décadas. Dos amigos de rua, ganhou o apelido de “Animal” que a acompanha até hoje.

Cansada da vida nas ruas, Ana diz que queria mudar, mas não sabia como. Ao parar em frente a uma televisão na vitrine de uma loja de eletrodomésticos, assistiu trechos do filme “Carruagens de fogo”, clássico que narra a saga de dois corredores ingleses que lutam para atingir a glória nos Jogos Olímpicos de 1924. “É isso o que eu quero fazer: vou correr, eu pensei”, diz Ana. “Até porque não seria nenhuma novidade para alguém que corre da polícia”, comenta, com ironia.

Ao falar sobre o inusitado desejo com um dos amigos da rua, Ana foi desafiada a correr a maratona de São Paulo, que aconteceria alguns dias depois. Ela não sabe dizer exatamente o ano dessa maratona de São Paulo, assim como não consegue precisar fatos e datas de sua vida. Mas conta que não tinha ideia da distância de uma maratona e aceitou o desafio. “Os meninos me ajudaram a roubar roupas e o tênis para correr, e me deram dinheiro para fazer a inscrição”, diz. Sem qualquer preparação, “além de um saco de cola de sapateiro no bolso”, garante que completou os 42 quilômetros e provou ao amigo que era capaz. A corrida entrava oficialmente na vida de Ana Luiza Garcez.

Quero correr

“Corro por causa dela”

Maicon Nascimento, 16 anos, sua sob o comando de Ana, que passa exercícios de técnica e depois um treino de velocidade na pista de aquecimento. Quando vai para a pista, impressiona com sua velocidade, passadas largas e pernas finas. “Esse menino corre bem”, diz Wanderlei de Oliveira.

Maicon chegou ao treinamento da Run for Life não para procurar os técnicos, mas para ver Ana Luiza Garcez. Ele a viu em uma outra reportagem na televisão e decidiu pedir ajuda. Segundo ele, Ana seria capaz de entender o que estava passando. “Eu estava envolvido com drogas e outras coisas que não devia. Fui parar no hospital e, quando vi minha mãe chorando, decidi mudar de vida”, diz o morador do bairro Vila Clara, zona sul, periferia de São Paulo.

Hoje, Maicon trabalha como entregador de um restaurante e treina de segunda a sábado. Só descansa no domingo. “Tentei com muita gente, mas só a Ana me ajudou. Hoje estou trabalhando, larguei as drogas. Se eu devo isso a alguém, é a ela”, diz.


Depois de terminar a maratona “sabe lá Deus como”, Ana diz ter percebido que precisaria de ajuda se quisesse correr de verdade. “Em 1998, procurei um posto de saúde dizendo que achava que tinha Aids, aí me mandaram fazer exames Hospital das Clínicas”, diz. No HC, ela foi encaminhada ao fisiologista Carlos Eduardo Negrão. Ele conta que mediu o índice de VO2 de Ana e detectou que ela tinha uma capacidade alta de absorção de oxigênio. "É um caso marcante, não é corriqueiro. Mas ela já sabia que tinha potencial para correr, e nós só confirmamos isso", diz o fisiologista.

Sem técnico nem técnica, ela voltou às ruas e foi aprendendo a correr. Seus treinadores garantem que hoje em dia, apesar de correr sem relógio, Ana tem uma noção de ritmo impressionante. “Mesmo nas provas em que a distância é contada em milhas, ela mantêm o passo e faz o tempo combinado, cravado”, diz Wanderlei de Oliveira. Com o diagnóstico “corredora em potencial” nas mãos, Ana passou a tentar participar de algumas provas por conta própria.

Em 1998, a televisão que a havia inspirado a correr entrou em cena de novo. E a tirou das ruas. Ana apareceu em uma reportagem no programa do Gugu, no SBT, sobre moradores de rua, onde revelava sua paixão pelas corridas. O então secretário municipal de esportes de São Paulo, Fausto Camunha, viu o programa e pediu que seus assessores a encontrassem. "No dia seguinte, ela apareceu no meu escritório. Estava desconfiada, mas percebeu que eu queria ajudar", afirma Camunha. "Falei que ela merecia respeito como qualquer outra pessoa. Pode parecer estranho, mas até então ela não acreditava nisso".

Camunha a convidou para morar no Centro Olímpico da prefeitura de São Paulo e virou pessoa decisiva na sua recuperação. Para Ana, é o que mais se aproxima de uma figura paterna. Até hoje, se falam com frequência. "Enquanto eu for vivo, vou estar sempre por perto dela", diz Camunha. No Centro Olímpico, Ana teve acesso a toda infra-estrutura que precisava, como nutricionista, assistente social, fisioterapia e dentista. A partir de então, o que era apenas potencial passou a ser realidade. Ana deixou as drogas e virou atleta. "Gostaria de ter ajudado outros atletas como ela, porque tem muitos por aí", diz Camunha, entre orgulhoso e triste.

Em 2000, Ana passou a morar no Ginásio do Ibirapuera, onde vive até hoje. O técnico Wanderlei de Oliveira, um dos fundadores do Pão de Açúcar Club — um dos grupos de corrida pioneiros de São Paulo —, dava treinos no mesmo local. Ele diz que, no início, não queria treinar a ex-menina de rua de temperamento forte. Mas, a pedido de Camunha, o então governador Mário Covas intercedeu e Wanderlei aceitou ser o técnico de Ana. Desde então, Ana vive em um quarto no setor de alojamentos do Conjunto Desportivo Constâncio Vaz Guimarães, no Ibirapuera. Recebe o auxílio de restaurantes da região para suas refeições. Sua rotina é correr e ajudar quem quer correr. Animal diz não ter vontade de casar nem ter filhos. Gostaria muito de ter uma casa para chamar de sua, mas duvida que isso vá acontecer um dia. "Não tenho sonhos, mas sou feliz", garante. "Quero correr até morrer, até quando eu não agüentar mais ficar de pé".

Ela acorda 5 da manhã e treina até as 20h, na própria pista de atletismo, no Parque do Ibirapuera ou nas ruas da cidade. Treina de manhã e à tarde. De noite, ela ajuda a equipe da Run for Life nos treinos. Com frequencia é convidada para contar sua história em eventos ligados às corridas, e ganha uns trocados por isso de vez em quando. Se um dia pode virar treinadora, difícil dizer. Ana tem um lado caótico, como reconhece Wanderlei de Oliveira, e teria dificuldades com o trabalho mais “burocrático” dos treinadores — organizar planilhas, definir locais de treinamento, separar níveis de atletas etc. Mas para auxiliar de treinamento, ela parece perfeita. Ama a corrida, demonstra isso para os alunos. Nem precisaria gritar ao lado da pista. Sua presença, e a presença de sua história, já é uma inspiração.

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