Pegando fogo

Quer saber exatamente como o calor afeta os corredores? Nosso repórter resiste a uma hora de suor em uma verdadeira estufa e sobrevive para contar a história

Por Amby Burfoot | Ilustrações Yuko Shimizu e Japs

Alguém deve estar brincando comigo... minha garrafa de água sumiu. Ontem, quando estava na esteira, tinha uma garrafa comigo durante os 60 minutos. Hoje, a temperatura é de 32 graus, o suor escorre pela testa e a garganta está seca como uma lixa. Preciso beber alguma coisa, mas cadê minha garrafa? Rá, rá, rá, muito engraçado. Deve ter sido um desses estudantes.

Dou uma olhada em volta da câmara aquecida e vejo Linda, Matt e Brendon, os três estudantes de doutorado da Universidade de Connecticut. "Brendon, cadê minha garrafa?" Ele me olha com uma cara de cachorro abandonado, como se jamais fosse capaz de fazer uma coisa dessas. "Você não pode beber agora", diz. "Tem de fazer tudo igualzinho a ontem, não lembra?"

Droga, é verdade. Ontem, com a temperatura de apenas 12 graus, dei uma de durão e tomei só dois goles de água. Quem precisa de líquidos durante uma corrida fácil e com temperatura baixa? Além disso, corri em ritmo confortável, 5:30 por quilômetro, aproximadamente meu ritmo de maratona. Agora, tenho de repetir a mesma rotina, embora a temperatura esteja quase 20 graus mais alta. Brendon vai me dar 30 ml de água depois de 20 minutos e outros 30 ml aos 50 minutos, assim como ontem. Nem mais, nem menos.

Afinal de contas, trata-se de uma experiência científica. Sou a cobaia, e regra é regra, o que se aplica a um laboratório de fisiologia ainda mais do que ao exército ou à política internacional. O objetivo é realizar duas corridas de 60 minutos, com apenas uma diferença: a temperatura. Qualquer alteração no modo como meu corpo funciona será resultado direto da mudança na temperatura.

Todos nós sabemos que o calor nos torna mais lentos e nos faz sentir como uma batata cozida. Sem falar no risco potencial: um corredor não aclimatizado, que se exercite pesado sob calor, umidade e sol fortes, pode passar de cãibras à desidratação e, então, à insolação. Não há como chegar a esse ponto aqui. Mesmo que eu quisesse, os cientistas não me deixariam. No entanto, estava curioso para descobrir como o calor me afetaria durante essa corrida de uma hora. Quanto iria suar? Quanto a frequência cardíaca iria subir? Exatamente em quanto minha temperatura iria se elevar? Embora todos nós tenhamos reações diferentes ao correr no calor, a maioria das minhas reações seria a mesma de outros corredores.

Fique frio

Fique esperto quando correr no calor


Os especialistas da Universidade de Connecticut e corredores experientes Doug Casa e Larry Armstrong recomendam as seguintes estratégias para correr com segurança e saúde no verão.


- Passe de oito a 14 dias se aclimatando ao tempo quente, aumentando gradativamente a distância e intensidade do treinamento. Nesse tempo, o corpo aprenderá a diminuir a frequência cardíaca e a temperatura retal e a aumentar a taxa de transpiração.


- Corra no horário mais ameno do dia, geralmente pela manhã, antes ou logo depois de o sol nascer.


- Corra na sombra, em trilhas ou ruas arborizadas, para evitar o sol forte.


- Use roupas de material leve e em menor quantidade possível para estimular a evaporação do suor.


- Hidrate-se de maneira adequada antes, durante e depois da corrida. Mas cuidado: hidratação em excesso também pode ser perigoso.


- Corra uma distância menor do que a que está acostumado a correr no frio.


- Corra em ritmo mais lento do que o que está acostumado a correr no frio. Não espere igualar os tempos obtidos em condições melhores. Isso não é possível no calor.

- Corra com amigos ou avise alguém quando for correr e quando pretende retornar.

Mas agora, faltando 50 minutos, me ocorre que se soubesse que o processo seria extremamente desagradável, talvez tivesse pensado duas vezes antes de oferecer minha contribuição à ciência.

Fui à universidade por dois motivos: a câmara aquecida, capaz de atingir 43 graus, e seus especialistas. Os professores Douglas Casa e Lawrence Armstrong, coautores do artigo "Exertional Heat Illness during Training and Competition" da American College of Sports Medicine, são corredores experientes e duas das principais autoridades dos Estados Unidos no que se refere a exercícios no calor. Armstrong editou o livro definitivo sobre o assunto, Exertional Heat Illnesses. Casa seguiu uma abordagem mais excruciante: em 1985, enquanto disputava os 10 km dos Empire State Games em Buffalo, Nova York, sofreu insolação, uma condição médica perigosa que pode levar a danos nos órgãos e, em casos extremos, à morte. Quando recobrou a consciência no hospital, decidiu dedicar a vida à prevenção da insolação em outros atletas.

Em meados de março, quando chego ao campus da universidade, Casa, um professor magro de 40 anos, me leva até o laboratório de fisiologia, onde encontro Linda Yamamoto, Matt Ganio e Brendon McDermott. Brendon mostra a câmara aquecida, um bunker sombrio e pequeno. Uma esteira está virada para a parede, há vários equipamentos no meio da sala e os três ratos de laboratório se espremem no pouco espaço que resta. Matt colhe uma amostra de sangue pré-corrida, coloca um frequencímetro no meu peito e me conduz até a balança digital. Depois de cada corrida, outra amostra de sangue é colhida e sou pesado novamente. Em seguida, Brendon me dá um coletor de urina e instruções breves. Em seguida, me entrega algo que parece um fio de TV a cabo e explica que se trata de uma sonda de temperatura retal, a maneira mais precisa de se medir a temperatura corporal.


Encaro o longo cabo e sua ponta de borracha, sem ter muita certeza do que fazer. Finalmente, pergunto:

- "Vaselina?"

- "Não, não é necessário".

- "Ok, mas não tenho certeza como essa coisa funciona. Se precisar, algum de vocês me ajuda?"

Linda solta um gritinho e aponta para os colegas. Matt responde rápido: "Desculpa, mas não faz parte das minhas tarefas". Brendon apenas balança a cabeça e me leva até o vestiário do outro lado do corredor. Cinco minutos depois, volto com um sorriso orgulhoso, um recipiente pela metade em uma mão e a extremidade "feminina" da sonda na outra. Vou poupá-los dos detalhes. Um fio sai da parte de trás do meu short e conecta-se ao monitor. Estou usando também um frequencímetro e, a cada 20 minutos, tenho de colocar um dispositivo na cabeça com uma máscara para que os alunos possam medir meu consumo de oxigênio.

Como foi a primeira corrida de 60 minutos na esteira? A 12 graus, foi moleza até o final. "Preciso furar seu dedo assim que parar de correr", pede Linda. "É assim que medimos o lactato".

Estico o dedo e ela o espeta com um furador de gelo ou, pelo menos, é assim que sinto. Começa a espremê-lo como se estivesse amassando pão. "Já tenho o sangue", diz, "mas não estou conseguindo o suficiente para uma boa amostra". Finalmente, consegue, mas não antes de eu ameaçar fazer o doutor Casa confiscar seu diploma.

Tenho um mau pressentimento quando chego ao laboratório no dia seguinte, às 8 horas. O professor Casa já estava lá desde as 5h, aumentando a temperatura. Meses antes, havia dito a ele que queria correr a 38 graus, mas ele e minha esposa me convenceram do contrário. "Eu te mato se você não chegar em casa vivo", ela ameaçou.

De picolé a batata assada

Uma hora em condições ideais X uma hora em temperatura alta

Realizei treinos idênticos – uma hora em ritmo de 5:30 por quilômetro – em dias consecutivos na câmara aquecida da Universidade de Connecticut. O primeiro treino foi realizado a uma temperatura de 12 graus, o segundo a 32 graus. Na corrida em temperatura alta, a frequência cardíaca, a temperatura e a perda de suor atingiram níveis que prejudicam o desempenho e aumentam os riscos para a saúde, uma reação que Lawrence Armstrong, editor do livro Exertional Heat Illnesses, chama de "clássica".


Por cerca de cinco minutos, correr com 32 graus não parece tão ruim, provavelmente devido à umidade moderada. Tentando manter a pose de durão, digo: "Vocês chamam isso de quente? Acho que não vou nem transpirar". Alguns minutos mais tarde, quando uma gotinha de suor começa a escorrer pela testa e percebo que não tenho água à disposição, começo a ficar irritado. De repente, Linda grita: "Sem temperatura, perdi a temperatura", examinando os botões à sua frente.

O quê? Não estou me sentindo bem, mas não pensei que já tivesse morrido. Por favor, não contem para a minha mulher."Vamos reduzir a velocidade", explica Brendon. "Assim que puder, saia da esteira e verifique a sonda retal".

Prometi que iria poupá-los dos detalhes. Basta dizer que para essa "verificação", tive de me dobrar e empurrar o fio para cima várias vezes. Mesmo assim, nada de temperatura. Brendon deduz que a sonda está quebrada e rapidamente arruma outra. Maravilha, mas agora tenho que retirar a sonda e começar tudo de novo. "Estou vendo a temperatura novamente", Linda se anima. Volto para a esteira. Para compensar o tempo perdido, tenho de correr cerca de sete minutos a mais na câmara aquecida.

Aos 20 minutos, Brendon me passa a garrafa de água com 30 ml. Não consigo nem sentir. Quando chego aos 50 minutos, a água praticamente atingiu a temperatura ambiente. Argh. À medida que os minutos vão se arrastando, meu rosto vai ficando cada vez mais vermelho, e a camiseta vira uma esponja encharcada de suor. As pernas ficam estranhamente pesadas, a respiração é difícil e percebo que estou ficando tonto.

Fico irritado porque o ventilador está jogando ar quente em cima de mim. De que adianta? Estou ficando muito cansado dessa história de me sentir uma batata cozida. Finalmente, termina a sessão. Brendon desacelera a esteira, Linda fura meu dedo – ai, de novo! – e Matt colhe sangue e me pesa. Algum anjo que não consigo reconhecer me dá um Gatorade gelado. Minutos mais tarde, sou liberado para o vestiário para uma amostra final de urina e a cuidadosa remoção da sonda.

Uma semana depois, tenho uma audio-conferência com Casa e Armstrong para analisar os resultados. Armstrong observa que minhas taxas de suor são "classicamente normais", e que a corrida em alta temperatura me levou para além do "ponto de início clássico do acúmulo de lactato no sangue". Casa diz que é "impressionante", no sentido de: "É impressionante como sua temperatura aumentou e como ficou desidratado após somente uma hora de corrida em ritmo moderado".

Durante a corrida, a frequência cardíaca subiu para 175, cerca de 96% da frequência máxima. Minha temperatura subiu para 39,7 graus, perto do limite de uma insolação, que pode ocorrer potencialmente quando a temperatura corporal atinge os 40 graus. O ácido láctico ultrapassou 4,0, o ponto em que a maioria dos fisiologistas define como limiar do lactato, no qual os músculos das pernas passam a não funcionar de maneira eficiente. O volume de plasma foi reduzido em mais de 10%, o que, combinado com uma desidratação total de 2,6%, forçou o coração a trabalhar ainda mais pesado para bombar sangue para as pernas. Tudo isso em um ritmo que considerei confortável. Se tivesse corrido uma distância maior ou em um ritmo mais puxado a 32 graus, é provável que tivesse entrado na zona de mal-estar causado pelo calor, o precursor da insolação.

"Ainda bem que não deixamos você correr a 37 graus", afirmou Casa. "Acho que teríamos de arrancá-lo da esteira antes de completar os 60 minutos. Vale lembrar que vários corredores treinam no verão em temperaturas semelhantes e sob umidade muito mais alta do que a que você experimentou, e eles correm por duas ou três horas. Essa experiência vai informá-los sobre os efeitos do calor".

Entendido. Mesmo que não aperte o ritmo, correr no calor sobrecarrega o corpo. Por isso, corredores que treinam em climas quentes precisam fazer alguns ajustes. Senão, você poderá começar a ver miragens no horizonte. Se elas começarem a virar estudantes de faculdade, você estará correndo um grande risco.


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