A guerra dos tnis

De um lado, com apoio do governo brasileiro, a Olympikus. Do outro, as principais marcas esportivas mundiais. A briga por esse bilionrio mercado j pesa no seu bolso. E pode piorar

Por Camila Fontana | Ilustraes Estdio 1+2

Os preos dos tnis de corrida esto altos, certo? Pois prepare-se: se uma nova legislao de comrcio exterior for de fato colocada em prtica, trocar o principal acessrio da corrida vai ficar ainda mais caro para os brasileiros. A escalada dos preos comeou quando o governo determinou em setembro do ano passado uma sobretaxa provisria de 12,47 dlares a cada par de calado vindo da China. A justificativa era que aquele pas estava despejando no Brasil produtos a preos mais baixos que no mercado chins, uma prtica conhecida como dumping considerada predatria e passvel de retaliao pela Organizao Mundial do Comrcio. Em maro deste ano, a Cmara de Comrcio Exterior (Camex) elevou a sobretaxa para 13,85 dlares e tornou-a definitiva.

As grandes marcas internacionais, como Nike, Adidas e Asics, conseguiram "driblar" a sobretaxa com um rearranjo logstico: intensificaram a importao de produtos de outros pases e assim suavizaram o aumento dos preos por aqui. Mas a Associao Brasileira das Indstrias de Calados (Abicalados, cuja principal voz nessa questo a marca Olympikus) voltou carga e acusa os importadores de desviar produo da China para pases como Malsia, Vietn e Indonsia (a chamada "triangulao"), o que contraria as regras do comrcio internacional. A associao exigiu que a sobretaxa fosse estendida tambm mercadoria trazida dessas naes pleito que foi atendido pela Camex em nova regulamentao em 17 de agosto. Para que a sobretaxa aos demais pases seja aplicada na prtica, entretanto, o governo precisa comprovar em uma investigao que a triangulao de fato existe. Nesse meio-tempo, as marcas internacionaistentam com audincias formais e lobby derrubar a medida.

J aumentou

No geral, depois da sobretaxa chinesa, o reajuste para os tnis top de linha das principais marcas variou de 8% a 12%, o que se traduziu em 50 a 60 reais a mais por par para o consumidor final, de acordo com Renato Zimmermann, scio-diretor da Bayard Esportes, rede de artigos esportivos com dez lojas na cidade de So Paulo. Para um corredor assduo que troca de tnis a cada trs meses, o gasto anual j aumentou em mais de 200 reais uma conta que pode dobrar se a sobretaxa for de fato estendida a outros pases. Os preos dos melhores tnis vo subir mais 50 a 70 reais por par, segundo Giovani Decker, vice-presidente da Asics no Brasil. Assim como todas as grandes marcas esportivas estrangeiras, a Asics afirma que o governo errou ao aplicar a sobretaxa antidumping aos tnis de alta tecnologia vindos da China e ampliaria o erro ao impor a multa a esse tipo de produto vindo de outros pases. "No se pode misturar calcado esportivo de performance com o normal. Categoricamente, no mercado esportivo no existe dumping", afirma Decker.

Mas o governo achou que a prtica predatria existe e isentou da sobretaxa apenas sandlias de couro, chinelos de borracha, sapatilhas de bal, patins. Favoreceu at as pantufas, mas deu sinal vermelho aos tnis para prtica de esportes. No s isso: as autoridades agilizaram o processo para estender o imposto aps a Abicalados apresentar dados sugerindo que empresas estrangeiras mudaram a origem da mercadoria importada para evitar a taxao.

Segundo nmeros da Secretaria de Comrcio Exterior compilados pela Abicalados, a Malsia, por exemplo, que de janeiro a julho do ano passado exportou menos de 12000 pares de calados para o Brasil, j mandou quase 3 milhes de pares pra c este ano (veja tabela). No caso da China, a exportao para o Brasil caiu de 17,6 milhes de pares para 7,2 milhes. Na opinio do presidente da Abicalados, Milton Cardoso, esses dados indicam que exportadoras esto fraudando documentos de origem ou enviando da China calados em partes para serem montados em outros pases. No caso dos tnis de corrida, Cardoso, que tambm preside a Vulcabr, maior fabricante de calados esportivos da Amrica Latina e dona das marcas Olympikus e Reebok, diz ter observado que a mercadoria que vinha predominantemente da China agora passou a vir principalmente do Vietn.

Tnis de outros pases que no a China ainda no foram sobretaxados como quer Cardoso porque a regulamentao necessria para coloc-la em prtica s foi aprovada pela Procuradoria-geral da Fazenda Nacional em 17 de agosto. A aprovao aconteceu duas semanas depois de uma reclamao em praa pblica do ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, contra o colega da Fazenda, Guido Mantega. Quando questionado sobre o prazo para a regulamentao da lei contra triangulao, Jorge disse: "No h previso porque depende de outro ministrio. Se fosse do nosso ministrio, j teria sido aprovada. Eu j falei com o ministro e se vocs puderem fazer mais um pedido ao Mantega seria timo, porque ns precisamos disso".

O ministro Jorge provavelmente no se referia a voc, valente corredor que fica mais pobre a cada troca de tnis, mas a Abicalados garante que, desde que a sobretaxa antidumping foi aplicada contra a China em carter provisrio em setembro de 2009, as fabricantes brasileiras de calados criaram 60000 novos postos de trabalho, sem contar as vagas geradas na cadeia produtiva que inclui curtumes, tecelagens e fbricas de maquinrio e borracha.

A medida antidumping, no entanto, no foi bem-vinda por outras empresas brasileiras de material esportivo, como Cambuci (dona da Penalty) e So Paulo Alpargatas (detentora das marcas Topper e Rainha e revendedora da Mizuno), que tambm trazem mercadoria da sia. A So Paulo Alpargatas entrou com uma ao no Supremo Tribunal de Justia contra a cobrana da sobretaxa ao calado chins. No se acha representada pela Abicalados, que apresentou a petio denunciando o dumping.


Todos contra a Olympikus

Como era de esperar, as marcas estrangeiras fazem coro com a Alpargatas no questionamento do papel da dona da Olympikus. A Vulcabras " a nica empresa beneficiada pela tarifa", afirma Decker, da Asics, acrescentando que as marcas estrangeiras tambm colaboram para o emprego no pas porque contratam a produo de tnis, roupas e acessrios de empresas terceirizadas como Pettenati Indstria Txtil e Paquet Calados, ambas do Rio Grande do Sul. Perguntado sobre o impacto da sobretaxa antidumping nas vendas da Olympikus, Cardoso disse: "Quando voc concorre com algumas empresas que usam prticas desleais de comrcio e o governo coloca uma medida que as impede de praticar irregularidades, voc passa a ser mais competitivo".

Apesar de todas as batalhas perdidas at agora, as marcas estrangeiras avisam que no vo jogar a toalha e agora contam formalmente com aliadas nacionais para tentar convencer o governo a reverter a punio aos tnis esportivos. Nike, Adidas, Asics, Puma, New Balance, Skechers, Penalty/Cambuci e So Paulo Alpargatas divulgaram em 25 de agosto a formao de um grupo que vai tentar retomar as negociaes com o governo, com o objetivo de isentar o calado esportivo de alta tecnologia da medida antidumping ou reduzir a taxa cobrada.

Segundo representantes das multinacionais, uma parcela expressiva dos tnis vendidos no mercado brasileiro fabricada aqui, mas os modelos de alta performance s so produzidos em um punhado de fbricas na sia por questes tecnolgicas e de escala, o que significa que toda a produo de determinado modelo de ponta concentrada em uma ou duas unidades no mundo para minimizar o custo de uma mercadoria cara por natureza. Pelas contas da Adidas, o mercado brasileiro consumiria at 10 milhes de pares de tnis de alta performance por ano. Segundo o diretor de marketing Rodrigo Messias, a inteno da Adidas e das outras marcas do grupo batalhar pelo fim da taxa antidumping sobre os tnis que custam acima de 400 reais para o consumidor. "A gente ficaria contente em segmentar por calado esportivo de alta performance porque o calado esportivo normal todo mundo fabrica aqui", afirma Mario Andrada e Silva, diretor de comunicao da Nike para a Amrica Latina.


Como moeda de troca, as multinacionais esto dispostas a negociar com o governo a transferncia de mais produo (e empregos) para o Brasil. O novo grupo formado pelas marcas esportivas internacionais e nacionais tenta iniciar as conversas com as autoridades num momento em que o governo prepara as investigaes para definir quais pases alm da China sofrero a sobretaxa. O setor corre contra o tempo para impedir que a extenso da sobretaxa atrapalhe a importao de mercadoria destinada s vendas de Natal.

Se o governo no voltar atrs, a alternativa para os corredores comprar tnis de preo e qualidade inferiores ou dar um jeito de trazer o produto de ponta do exterior. Segundo a Bayard Esportes, enquanto o nmero de praticantes de corrida aumenta de 15% a 20% ao ano, as vendas de calados para essa modalidade ficaram estacionadas desde a aplicao da sobretaxa, num sinal de que a demanda est sendo suprida por material vindo de fora. "Nosso cliente viaja, at para correr maratonas, ou algum do seu crculo viaja", explica o scio-diretor Zimmermann, acrescentando que as medidas do governo podem afastar empresas de artigos esportivos com pouco tempo de operao no pas.

"Algumas marcas mais recentes esto repensando a viabilidade delas no Brasil."As marcas consolidadas claramente no iro embora do Brasil de mala e cuia, mas estudam reduzir a variedade de produtos no mercado nacional porque os consumidores esto rejeitando os preos mais elevados resultantes da tarifa antidumping. "O que no queremos como marca nos distanciar do corredor high performance. Eu no posso sair desse mercado, mesmo perdendo dinheiro. Mas em vez de trazer dez modelos eu posso s trazer sete. O mercado no suporta um aumento de preos da nossa parte", afirma Messias, da Adidas.

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