Haile contra o tempo

Aos 37 anos, o etíope Haile Gebrselassie acredita que pode baixar pela terceira vez o recorde mundial da maratona. Tem gente pagando (e muito) para ver

Por Maurício Barros

Na manhã do próximo dia 26 de setembro, sob o portão de Brandemburgo, principal cartão-postal de Berlim, na Alemanha, o etíope Haile Gebrselassie largará novamente com o número 1 no peito. Não será a mesma prova que os outros atletas de elite ao seu redor disputarão. Tampouco será a prova dos 40000 amadores que largarão atrás dele. Haile (ele é um corredor “paroxítono”, pronuncia-se “Ráile, e nem tente dizer seu sobrenome, sob o risco de convulsão...) travará uma disputa contra o relógio. Duas horas, 3 minutos e 59 segundos — é essa a marca que precisa bater, o recorde mundial da maratona, o monstro que ele mesmo criou em 2008, quando se tornou o primeiro ser humano a correr os 42,195 km abaixo de 2h04.

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Haile é hoje um showman. Vive e ganha milhões em torno da perspectiva de quebrar de novo o recorde mundial da mais nobre distância de fundo do atletismo (já o fez duas vezes, e a primeira foi também em Berlim, em 2007, quando marcou 2h04min26). Recordes mundiais, aliás, já bateu 26 nesses 37 anos de vida que completa em 18 de abril — e em todas as distâncias, dos 1500 metros à maratona, num festival de glórias que inclui medalhas de ouro em Olimpíadas e Campeonatos Mundiais. Seu sprint na final dos 10000 metros em Sydney-2000, batendo o amigo queniano Paul Tergat nos metros finais, é uma das mais belas páginas da história do esporte. Uma nova marca na maratona lhe renderá outro caminhão de dinheiro, de seu patrocinador (a Adidas não revela os valores, mas admite o bônus) e também do organizador da prova em que isso ocorrer. Berlim é a preferida, pela grandeza, pelo circuito plano e pelo clima ameno de outono. Mas os xeiques árabes têm também tentado presenciar em seus domínios o recorde — Haile venceu a última Maratona de Dubai, em janeiro, com 2h06min09, e a vitória, sem o recorde, lhe rendeu 250000 dólares de prêmio. Se tivesse batido o recorde, levaria mais 1 milhão de dólares como bônus. “Não corro mais de duas maratonas por ano”, diz o etíope.

Haile está em outra. Em Berlim, se perceber lá pelo km 32 que não conseguirá manter o ritmo enlouquecedor de 2min55/km (tente você, leitor, correr nesse ritmo não 42, mas 1 mísero quilômetro que seja; para uma segunda tentativa, considere atar uma salsicha à coxa e botar um doberman ensandecido atrás...), certamente vai desacelerar e se limitar "apenas" a terminar a prova em primeiro. Essa fase recente da carreira de Haile faz lembrar os últimos anos de Sergei Bubka, o mago ucraniano do salto com vara. Bubka era tão superior aos seus oponentes que, depois de ganhar tudo, passou a planejar a próxima quebra de recorde, sempre cuidando para não subir muito o sarrafo, elevando o limite a conta-gotas, de centímetro a centímetro, pois assim poderia quebrar as marcas (e os recordes de prêmios) várias vezes. A versão feminina de Bubka, a russa Yelena Isinbayeva, parece trilhar hoje o mesmo caminho.

Pelé das pistas

"Aquele cara é o Pelé", diz Marcos Paulo Reis, colunista de RUNNER'S WORLD, enquanto a reportagem da revista aguarda o fim de uma entrevista do etíope a uma emissora argentina para, enfim, iniciar o bate-papo que se segue. As luzes da TV, a câmera e o microfone chamam a atenção de quem circula pela alameda em frente à loja da Adidas no Barrashopping, zona sul do Rio de Janeiro — mas ninguém ali, entre sacolas e Blackberries, consegue entender por que tanto barulho ao redor daquele baixinho.

Marcos Paulo havia pensado muito sobre como definir o homenzinho de 1,65 metro de altura e 56 quilos. "Super-homem", "homem-bala", "furacão", nada lhe parecia suficiente. O futebol lhe salvou com a comparação precisa. Porque Haile é exatamente o Pelé das pistas. Dentro e fora delas. Dos feitos, já foi dito. Do carisma, é algo também gigante. Assim como é impossível achar um registro (foto ou vídeo) de Pelé em uma atitude hostil (um muxoxo, uma palma da mão estendida a uma câmera, um dedo médio em riste, resmungos a que todo mortal tem direito, inclusive os eternos), o mesmo ocorre com Haile. Sua simpatia e simplicidade hipnotizam. A diferença entre os dois é a dimensão de seus reinos — em popularidade e exposição, o futebol é um canhão, e o atletismo, uma pistola d’água.

Em visita ao Brasil para cumprir uma agenda com patrocinador e imprensa, Haile foi submetido a uma maratona de compromissos. E a entrevista à RUNNER'S WORLD foi a escala final antes da volta a sua mansão em Adis Abeba. Haile sorria. Contra o cansaço, fazia piadas. Ao receber o microfone da TV argentina para ler uma mensagem aos telespectadores, não se conteve e entoou "We are the world", clássico de Michael Jackson e Lionel Ritchie que arrecadou milhões para o combate à fome em sua África natal. A impressão é que, se houvesse mais espaço no rosto, Haile pediria a cirurgiões que lhe ampliassem o riso.

Água no coco

Na véspera, Marcos Paulo havia acompanhado Haile em um passeio pelo Rio para a gravação de um programa de esportes de uma emissora de TV brasileira. Ele conta que ficou com duas imagens gravadas do etíope. A primeira, quando se dirigiu a um garoto do projeto esportivo-social Futuro Olímpico, no bairro de Sulacap. "Eu tinha um corpo igual ao seu. Você quer virar um grande corredor? Está vendo aquele morro ali? Então suba e desça, suba e desça, suba e desça", disse.

A segunda surpresa foi no Aterro do Flamengo, quando pararam para tomar uma água de coco. "Haile pegou, tomou e perguntou: 'Quem botou esse suco aqui dentro?' Eu respondi. 'A natureza, Deus'", diz Marcos Paulo. "Ele nunca tinha visto aquilo, não sabia que havia água dentro do coco. Eu expliquei a ele que é um isotônico natural, umas das melhores bebidas para hidratação."

Haile chegou ao Brasil vindo de Nova York, onde disputou a meia maratona mas não completou, por um desconforto respiratório. Da escala no Brasil, voou para reencontrar a família em Adis Abeba, onde concilia os treinos com as tarefas de pai (é casado e tem três filhas e um filho) e empresário. Uma construtora, uma academia, um cinema e escolas estão entre seus vários negócios. É o maior ídolo do esporte etíope, com todos os mimos, inclusive nome de rua. Calcula-se que empregue mais de 600 pessoas. E odeia assistencialismos. Recorre ao clichê para explicar. "Não lhes dou o peixe. Prefiro ensinar a pescar."

A rede de TV CNN produziu em 2007 um documentário sobre Haile. Acompanhou sua rotina em Adis Abeba e os momentos que antecederam à primeira quebra do recorde da maratona, em Berlim. O vídeo está disponível no YouTube. Nele, Haile abre sua casa, mostra a família, veste traje típico, visita locais que remontam a suas origens humildes, comenta a infância simplória e feliz. E lembra histórias bastante conhecidas sobre ele, como a rotina de correr 10 km para ir e outros 10 km para voltar da escola, todos os dias. Os dez anos de trajeto com os livros no braço esquerdo lhe renderam uma técnica peculiar — o movimento do braço direito, que ficava livre, é mais amplo que o outro. A felicidade com que se refere à infância ("não tínhamos luz elétrica") lhe dá a segurança de falar do dinheiro que tem hoje como coisa. “Se você bota ele na frente do trabalho, nada dá certo”, diz. Deixar tudo e todos para trás é o que Haile sabe fazer de melhor.

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