
Por Amby Burfoot
Em 1960, o etíope Abebe Bikila venceu a Maratona Olímpica correndo com os pés descalços. Em 1966, Robert Parker gravou o hit "Barefootin" e em 1969, Paul McCartney andou com os pés descalços na Abbey Road (rua em Londres onde fica o estúdio de mesmo nome). Ninguém enxergou ali nenhuma tendência; nos anos 1960, as pessoas tinham outras preocupações. Três décadas mais tarde, Ken Bob Saxton completou sua primeira maratona correndo com os pés descalços, em 4h12. Mesmo assim, foi só em 2009 que a corrida com pés descalços se transformou em um assunto polêmico. O maior incentivo foi o livro Born to Run [literalmente, "nascido para correr"], de Christopher McDougall. Embora trate da história dos índios mexicanos Tarahumara – que correm com os pés descalços ou calçando huaraches, sandálias feitas apenas com tiras de borracha de pneu, – os capítulos polêmicos do livro concluem que os tênis de corrida contribuíram pouco para prevenir lesões. A popularidade dos tênis minimalistas como o Nike Free (extremamente leve, flexível e ventilado), e do Vibram FiveFingers (espécie de luva para os pés, com um solado de borracha) intensificou as discussões. "Barefoot"[pés descalços] Ken Bob Saxton, fundador do site runningbarefoot.org, e o podólogo e biomecanicista esportivo Kevin Kirby, corredor há quase 40 anos, falam a seguir sobre as vantagens – e as desvantagens – da corrida com os pés descalços. (Christopher McDougall recusou o convite para o debate.)
KEN BOB SAXTON: A melhor coisa, para mim e muitos outros que correm com os pés descalços, é, na verdade, a sensação de estímulo e alegria, o processo de ter um envolvimento mais interativo com a corrida: nós a sentimos com os pés. Não fazemos apenas um movimento automático de bater os pés no chão a cada passada. E aproveitamos o efeito de liberdade causado pelo ar que sopra em nossos pés. Resumindo, é divertido.
KEVIN KIRBY: Não vejo problemas em correr com os pés descalços de vez em quando, em uma superfície segura, para complementar o treino normal. Mas hoje não temos muitas áreas de gramado. Temos muito mais asfalto, concreto, vidro e pregos. Então, o que me preocupa é que a corrida com pés descalços cause lesões como perfuração da pele, infecções e até atinja estruturas vitais que ficam na sola do pé. Eu detestaria ver alguém que não se machucaria usando tênis sair para correr com os pés descalços e sofrer uma lesão séria.
KEN BOB SAXTON: Conheci corredores que se machucaram mais vezes quando usaram os famosos tênis minimalistas do que quando correram com os pés descalços. Eu acho que o tênis diminui excessivamente o feedback. Quando eu corri minha primeira maratona, usei tênis e fiquei com bolhas tão dolorosas que tive de andar nos 10 km finais da prova. Todas as minhas unhas ficaram pretas e caíram. Desde então, já corri 74 maratonas com os pés descalços e participei de centenas de competições de menor distância. Já corri em trilhas e estradas e já completei dezenas de milhares de quilômetros em treinos de corrida. E posso garantir que o dano geral que meus pés sofreram quando corri com os pés descalços é significativamente menor que o sofrimento causado por aquela única maratona em que corri de tênis. E eu não acho que meus pés tenham nada de especial.
KEVIN KIRBY: Sim, e eu acho que essas técnicas podem funcionar para algumas pessoas. Elas Ambas parecem defender que se pise mais com o antepé [parte da frente, da metade até os dedos] porque se acredita que, de alguma forma, ao pisar com a parte traseira do pé, as pessoas teriam menos eficiência e/ou sofreriam mais lesões. Mas correr pisando com o antepé também pode provocar lesões. Eu vi muitas lesões no tendão de Aquiles entre corredores cuja pisada natural era com a parte traseira do pé, mas que haviam se forçado a correr pisando mais com o antepé.
KEN BOB SAXTON: Se a corrida com pés descalços ajudar você a correr o caminho todo em vez de andar, que foi o que aconteceu comigo, então, ela definitivamente faz com que você seja mais rápido. Quando eu comecei a participar de competições de 10 km com os pés descalços, consegui alcançar a meta de terminar a prova em 40 minutos. Antes disso, quando corria de tênis, eu não conseguia alcançar essa meta. Então, no meu caso, consegui correr com mais velocidade, embora esteja ficando mais velho e mais lento, atualmente. Na nossa comunidade de pessoas que correm com os pés descalços, observamos resultados mistos. Muitos corredores são mais velhos e já sofreram lesões, então eles não se preocupam muito com velocidade. Eles aproveitam o fato de poder correr mais e sem lesões. Em alguns casos, eles melhoram o condicionamento físico e, por isso, conseguem competir com mais velocidade.
KEVIN KIRBY: Na minha experiência pessoal, desde a época em que fazia cross-country na universidade UC Davis, na Califórnia, às vezes fazíamos treinos de repetição no gramado do campo de beisebol. Eu descobri que conseguia aumentar minha velocidade em 3 minutos por km se não usasse tênis. Alguns estudos científicos mostraram que na corrida com pés descalços é possível aumentar a velocidade em 3%, comparado a quando se corre usando um tênis de 340 gramas, devido à diminuição do peso. Então, a corrida com pés descalços é certamente mais econômica. A pergunta que deve ser feita é: o que o corredor é capaz de tolerar? Você está disposto a assumir o risco de correr com os pés descalços? E quanto ao tênis de competição com solado praticamente plano e cujo peso é de 170 gramas cada? Para algumas pessoas, essa opção pode ser um meio termo razoável entre usar tênis e correr com pés descalços.
KEN BOB SAXTON: Eu conheci ou estive em contato com centenas de corredores que não estariam correndo hoje se tivessem de usar os tênis disponíveis. Os tênis podem não estar provocando as lesões, mas eles não as estão evitando da maneira como as empresas alardeiam nas suas campanhas publicitárias. O livro Born to Run estimulou muitos corredores a desafiarem as lesões praticando corrida com pés descalços ou com tênis minimalistas. Só acho que pode ser ruim se as pessoas se empolgarem demais, pois elas podem acabar forçando mais do que deveriam e acabar se machucando, seja por falta de força nos pés ou de uma boa técnica de corrida.
KEVIN KIRBY: Eu corro há 40 anos, dou palestras sobre biomecânica em outro países, e não acho que tenhamos algum estudo que apóie tal argumento. É ridículo afirmar que os tênis de corrida são a causa das lesões. É o ato de correr que provoca lesões – as superfícies duras, o impacto com o solo com duas a três vezes o peso do corpo. São essas forças que vão provocar lesões, com ou sem o uso de tênis.
KEN BOB SAXTON: Como um bebê. Aproveite o fato de que as solas dos pés são delicadas e sensíveis. Isso vai fazer com que você aprenda ao máximo. Comece pisando em uma estrada de cascalho ou asfalto para se acostumar. Fique de pé, com o corpo reto e os joelhos curvados, e observe como os seus calcanhares se levantam. É uma experiência de descoberta. Definitivamente, você não pode apenas dizer “Certo, sou um corredor. Vou correr 15 km com os pés descalços”. Você precisa saber o que está acontecendo com o seu corpo. Felizmente, os pés são sensíveis e isso é bom. Preste atenção ao que eles dizem e eles evitarão que você faça qualquer bobagem. E, antes de completar o primeiro quilômetro, lembre-se de quanto tempo um bebê leva para aprender a andar e correr.
KEN BOB SAXTON: A corrida com pés descalços é, na verdade, algo que já foi experimentado e testado ao longo de milhões de anos de evolução. Os pés se tornaram essa maravilha da engenharia que são porque funcionam. Mas neste momento, com certeza, trata-se de um comportamento impulsionado pela mídia; eu sou parcialmente responsável por isso, o que não é um problema para mim. A indústria de tênis de corrida teve muitos anos de divulgação intensiva de seus calçados, apoiada por milhões de dólares gastos com propaganda. Se a moda da corrida com pés descalços pegar, isso só vai acontecer porque as pessoas acham que dá certo correr dessa maneira. E já está dando certo para muitos corredores que de tanto se machucarem pararam de correr ou deixaram de gostar de correr. Não se trata de um movimento para criar ultramaratonistas ou maratonistas olímpicos. Estamos apenas tentando ajudar corredores comuns a pensarem mais sobre como estão correndo e a terem mais prazer com o esporte.
KEVIN KIRBY: Acredito que seja um comportamento que ganhou uma divulgação excessiva na mídia. Isso não significa que seja ruim, mas que esteja na mídia por ser diferente. Eu apostaria que menos de 0,1% dos corredores estão treinando com os pés descalços. Mas que algumas poucas pessoas passarão a adotar essa prática e algumas se beneficiarão dela. Eu recomendo a alguns corredores que experimentem correr com os pés descalços. Saia e corra um pouco em um bom gramado. Concordo com Ken que é bom para os corredores que eles conheçam melhor a sensação de colocar os pés no chão; mas não acredito que vamos ver alguma grande mudança ou que veremos todo mundo correndo com os pés descalços.
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