
Por Dan Koeppel | Ilustração Yuko Shimizu
Olhe para seus calçados. Os cadarços estão torcidos e com feios nós duplos? Talvez os laços estejam irregulares, embolados ou formem um emaranhado. O nó se desfaz quando você corre?
Ian Fieggen sabe o porquê, e, se você tiver a chance de encontrá-lo, ele provavelmente explicará o motivo. “Eu tinha o hábito de ficar olhando para os cadarços das pessoas nos shopping centers”, diz ele. “Contava quantas pessoas haviam amarrado os calçados incorretamente. De vez em quando, ia ao encontro delas e explicava o que tinham feito errado.” Quase sempre, elas não gostavam muito. Algumas apenas se afastavam. Outras ficavam com raiva. No entanto, um número surpreendente de pessoas parecia ficar magoada com a crítica, e Fieggen não estava preparado para essa reação. Ele só queria passar a mensagem: não é culpa sua. “O problema está no modo como lhe ensinaram”, dizia.
O nó do Ian
Ele é elegante, rápido e firme. Veja abaixo como fazê-lo:
Faça um nó inicial segurando o cadarço direito entre o polegar direito e o indicador e o cadarço esquerdo em volta do polegar esquerdo e indicador. Segure o cadarço esquerdo esticado.
Faça um laço com a ponta solta de trás e outro laço com a ponta da frente. Use o dedo médio direito para empurrar a ponta do cadarço direito e vire sua mão esquerda para trazer o laço esquerdo para a direita.
Cruze os dois laços. Use seu polegar esquerdo para empurrar a ponta esquerda para a direita, à medida que seu dedo médio direito empurra sua ponta solta direita para levá-la para dentro do laço esquerdo.
Esse movimento exige que cada mão use os dois dedos dentro do seu respectivo laço para poder pegar o outro laço. Use o polegar esquerdo e o indicador, e seu polegar direito e o dedo médio.
Cada mão solta seu respectivo laço e puxa a ponta solta do laço oposto através do seu próprio laço. Não puxe as pontas até o fim porque isso formaria um nó em vez de um laço.
Esta etapa serve para completar o nó ao puxar os laços com firmeza.
Lembre-se de quando era criança e aprendeu a amarrar os calçados. Primeiro, você foi ensinado a pegar uma ponta do cadarço e passar por baixo da outra. Então, foi orientado a fazer uma volta com o cadarço e dar um laço. Muito simples. Só que não é tão simples assim. Na verdade, há mais de uma maneira de dar um nó padrão e, segundo Fieggen, as chances de você estar fazendo isso incorretamente são de 50%. Para amarrar um sapato, quase todas as vezes começamos com um nó e terminamos com um laço. Infelizmente, se amarrar os laços na mesma direção que o nó inicial, o produto final não ficará no lugar. A isso se dá o nome de nó triplo. Se as circunstâncias o levaram para esse lado, você estará fadado a ficar com os cadarços soltos, tortos, e terá de ficar reamarrando os calçados. Para manter os cadarços no lugar, é necessário dar o chamado nó direito, no qual você dá o nó inicial em uma direção e o laço final em outra. A diferença entre um nó triplo e um nó direito é uma questão de tensão: se você estiver com um nó direito, a cada movimento dos seus pés, a tensão exercida sobre o nó irá apertá-lo. Agora, se você estiver com um nó triplo, a mesma tensão irá desfazê-lo.
Entretanto, não é preciso compreender a física envolvida ao amarrar cadarços para poder diferenciar os nós. Laços tortos são a dica visual para tudo isso. Os laços do nó direito caem graciosamente sobre os lados direito e esquerdo do sapato. Aqueles que não usam o nó direito estão condenados a sempre ficar com o laço alinhado longitudinalmente ao sapato.
Não há dúvida de que cadarços desamarrados representam uma pequena frustração para o público em geral, e para os corredores o impacto pode ser irritante, cansativo e, até mesmo, perigoso. O queniano John Kagwe teve de parar duas vezes para amarrar os cadarços durante a Maratona de Nova York em 1997. Ainda assim, venceu a prova em 2h08’12’. Kenenisa Bekele, da Etiópia, venceu o campeonato mundial de cross-country em 2008, apesar de ter parado para amarrar o tênis. Em Pequim, o jamaicano Usain Bolt ganhou uma medalha de ouro olímpica e quebrou o recorde mundial com o cadarço de sua sapatilha dourada desamarrado. Pelo jeito, até atletas de elite usam nós triplos.
Fieggen compreende. “É difícil mudar o hábito”, diz. Nós triplos e nós direitos são irritantemente parecidos. Ainda assim, aqueles que usam os nós triplos podem se corrigir com um pouco de esforço (leia “Pronto para se amarrar?”, abaixo). Fieggen oferece uma solução mais radical: um nó inteiramente novo, batizado de Nó do Ian. Ele sonha que um dia esse nó mudará o modo como as pessoas amarram seus calçados.
Fiegen pensa em cadarços há 25 anos. Este programador de computadores e designer gráfico inventou seu método para amarrar cadarços em 1982. O nó que criou é dado usando-se os dois lados do cadarço de maneira igual, portanto eles são manipulados de forma equilibrada. A princípio, o fascínio de Fieggen pelos nós de sapato limitava-se à criação de variações de seu próprio design.
Aí veio a internet, e novos horizontes foram revelados. De repente, Fieggen pôde descobrir muito mais métodos de amarração, colecioná-los, avaliá-los e compartilhar seu próprio nó com outras pessoas. Em 2002, lançou um site dedicado a amarrar calçados. Ian’s Shoelace Site (esbalde-se em www.fieggen.com/shoelace) é um guia criado para ajudar os visitantes (corredores, trilheiros, skatistas, jogadores de basquete e aqueles que estão atrás de um visual descolado) a descobrir um nó e um estilo de amarrar adequados.
Ensinar um grande número de pessoas a amarrar os calçados online, porém, não é fácil. Os vídeos e animações são bem produzidos, mas ainda assim podem ser um pouco confusos. Há três anos, Fieggen decidiu que precisava fazer mais. Saiu de seu emprego em tempo integral em 2007 para dedicar sua vida a ensinar pessoas a amarrarem seus calçados e, especificamente, para criar um guia de cadarços que veio a publicar posteriormente. A capa do manual parece um tênis Converse e vem com ilhoses e cadarços de verdade para que o leitor possa praticar. O livro é bem útil, mas é mais voltado para que seu tênis tenha um visual descolado (pressão do mercado, suspira Fieggen).
Prefiro o site. Brinco com invenções como o Freedom Knot (Nó da Liberdade) e o Turquoise Turtle (Tartaruga Turquesa). Gosto muito do Surgeon’s Knot (Nó do Cirurgião), que Fieggen elogia como sendo muito firme e fácil para aqueles cujos cadarços tendem a ficar soltos.
No site, uma animação guia os novatos pelas seis etapas do nó do Ian (leia no quadro ao lado). Eu, finalmente, aprendo a aplicá-lo. Embora, algumas semanas mais tarde, ainda não possa dizer que se trata do nó a que recorro todos os dias, a notícia do meu feito deixa Fieggen contente, o que faz com que me sinta bem. Fieggen fala de simetria o tempo todo. Ele vê beleza nos cadarços dispostos de maneira perfeita e aprecia a graça do movimento das mãos em harmonia.
Fieggen se empolga. “Se nós continuarmos a ensinar as crianças a amarrar calçados da forma como fazemos hoje, elas estarão condenadas ao fracasso. Sempre haverá pais destros ensinando filhos canhotos e vice-versa.” Fieggen espera para certificar-se de que entendi. “Essas crianças são aquelas para as quais os cadarços serão sempre motivo de preocupação.” Lembro como aprendi a amarrar meu sapato pela primeira vez. Meu avô estava me ensinando, mas eu não conseguia acertar. Finalmente, tentamos o nó tipo orelha de coelho. Ainda assim, ele continuava se desfazendo. Ele era destro; sou canhoto.
De repente, consigo sentir um pouco do entusiasmo de Fieggen. “Então, se conseguir erradicar o nó triplo por apenas uma geração”, digo, “terá solucionado o problema para sempre!” Pode ser o fim dos calçados desamarrados.
Certo e errado
NÓ EQUILIBRADO
NÓ TORTOFieggen gentilmente me corrige. Um mundo de nós firmes depende da compreensão do mecanismo por trás de sua criação: a própria simetria. “Você não pode apenas mostrar às pessoas como dar o nó”, diz. “Tem de ensinar-lhes por que o nó fica firme. Se não souberem isso e não puderem ensinar a próxima geração, estará tudo perdido novamente.”
Fieggen quer ir para as escolas difundir seu ensinamento, elaborar cursos. “Em alguma vida passada, devo ter sido professor”, afirma. Ele conta que, depois de trabalhar exclusivamente com cadarços por três anos, logo voltará a seu emprego normal. Seu site recebe milhares de visitas por dia, e o Nó do Ian parece estar se difundindo: pelo menos uma dúzia de vídeos semelhantes está aparecendo no YouTube. Em alguns casos, o nó e seu criador não são mencionados. Em outros, o crédito é dado a outra pessoa. Fieggen continua gentil. “Dei nome a algo que inventei”, diz. “Outras pessoas dão a impressão de que foram elas que o inventaram. Talvez todos tenhamos inventado nossos próprios nós.”
Não há mágoa ou raiva sobre a origem do nó. Não importa. Para Fieggen, o que importa é o futuro do nó.
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