Paixão Nacional

Por que gostamos das corridas de revezamento?

Sérgio Xavier Filho | Ilustrações Mauro Souza

5 revezamentos urbanos


Pão de Açúcar

Quando: Fortaleza 5/7; Brasília 16/8 ; São Paulo 20/9 e Rio de Janeiro 15/11 - Por que vale a pena: uma das maiores e mais tradicionais provas de revezamento do Brasil. Botou muita gente para correr em São Paulo, Rio, Brasília e Fortaleza. São 40 quilômetros que podem ser divididos em até oito corredores, cinquinho para cada um. Inscrições: Fortaleza até 11/06, Brasília até 9/8, São Paulo até 20/8 e no Rio de Janeiro as inscrições serão abertas em breve. www.maratonapaodeacucar.com.br


Ayrton Senna

Quando: São Paulo 8/11 e 25/10 - Por que vale a pena: é um revezamento mais ou menos nos moldes do Pão de Açúcar, só que disputado em autódromos, Interlagos em São Paulo e em Brasília (Autódromo Internacional de Brasília). Bem bacana, mas tem cada subida danada em Interlagos... Inscrições: a partir de 3/8, até 18/10 em Brasília e até 1/11 em SP. www.ayrtonsennaracingday.com.br


Maratona Braskem POA

Quando: 16/5/10 - Por que vale a pena: a organização aproveitou a realização da maratona individual para acomplar uma maratona de revezamento com equipes até de oito integrantes. E o percurso de Porto Alegre é lindo, além das temperaturas amenas de maio. Inscrições: A partir de 2/4/10 a 5/5/10. www.corpa.esp.br


Super 40

Quando: Rio de Janeiro 4/5; São Paulo 17/05; Belo Horizonte 28/6; Brasília 27/9 - Por que vale a pena: As equipes podem ser formadas por até 10 pessoas, com cada uma correndo 4 quilômetros. A distância curta permite convidar iniciantes para participar da festa. Tem muita equipe da repartição, da academia, do bairro, da manicure, gente muito animada. Inscrições: Belo Horizonte até 18/6 e Brasília até 20/9. www.super40.com.br



Corporate Run

Quando: São Paulo 30/8, a data para a prova do Rio de Janeiro ainda não foi definida - Por que vale a pena: o revezamento da “firma”. Cada um corre pela empresa que trabalha. Ótimo momento para melhorar as relações no escritório e deixar as picuinhas para lá. Inscrições: São Paulo até 28/8. www.corporaterun.com.br




5 revezamentos “de aventura”


Ilhabela Terra e Mar

Quando: 16/5/09. Ainda sem data para 2010 - Por que vale a pena: é a versão compacta (107 km) de Florianópolis. Tão boa quanto. Mais dura nas subidas e descidas. E com o charme adicional de ter um trecho de natação feito por um único integrante da equipe. O normal é uns 22 km por cabeça. Inscrições: www.corpore.org.br


Volta à Ilha

Quando: Prevista para 24/4/10 - Por que vale a pena: Florianópolis sempre vale a pena. No mínimo, no mínimo, fazer 150 km de turismo pela ilha já seria programão. Mas a prova, além de linda, é desafiadora. O normal é menos de 20 km por cabeça. Inscrições: a partir de 11/09. www.voltailha.com.br


Bertioga-Maresias

Quando: 30 maio e 17 outubro - Por que vale a pena: São 75 km para equipes de até 9 pessoas. A prova oferece vários tipos de terreno e passa por praias badaladas do litoral paulistano. O percurso final é o mais difícil, com asfalto, areia fofa e subidão. Inscrições: até dia 20/5. As inscrições para outubro ainda não foram abertas. www.ciadeeventos.com.br


Corpore Campos de Jordão

Quando: 26/9 - Por que vale a pena: é a versão “montanha” de Ilhabela. Mas mais dura ainda, mais íngreme. No lugar do nadador de Ilhabela, aqui há um ciclista que fará um trecho de montain bike. Em geral, 22 quilômetros por cabeça. Inscrições: de julho a setembro. www.corpore.org.br


Mountain Do

Quando: Lagoa da Conceição 16, 17 e 18/10. Costão do Santinho prevista para março de 2010 - Por que vale a pena: a prova é muito bem organizada e o DVD da própria corrida está disponível no dia seguinte. São 70 km em diversos tipos de terreno, normalmente divididos em octetos. As montanhas são duras mas o visual ameniza. Inscrições: Lagoa da Conceição até 25/09 e Costão do Santinho até 1/11

A Volta à Ilha reuniu em abril 3000 pessoas que encharcaram seus tênis em uma Florianópolis vertendo água pelos poros. A última Bertioga-Maresias terminou com 2500 corredores extenuados. A nona Ilhabela Terra e Mar provou em maio a resistência de 1200 homens e mulheres. Na corrida Corpore de Campos do Jordão, que acontece todo mês setembro, cerca de 800 corredores irão se transformar em cabras e subirão 142 km de pirambeiras na principal estação de inverno paulista.




Se trouxermos os revezamentos urbanos para a mesma cumbuca, a brincadeira se torna mais animada. A corrida Pão de Açúcar de Revezamento tem reunido 38 mil corredores por ano nas etapas de São Paulo, Brasília e Fortaleza. Há ainda a Maratona de Revezamento Ayrton Senna em São Paulo, o Super 40 (que acontece em Brasília, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro) e tantas outras corridas do gênero.


As provas diferem umas das outras, mas a lógica é semelhante entre todas. Nos revezamentos urbanos, um circuito longo é montado (costuma ter mais de 40 km) e dividido em trechos. Equipes de dois, quatro, oito ou dez atletas se formam para cumprir cada um deles. Corridas como Florianópolis, Ilhabela e Campos do Jordão são mais exigentes. Pedem logística e um preparo físico mais apurado. Em Ilhabela, por exemplo, um trajeto de 107 km é traçado para ser percorrido por times de cinco corredores e um nadador (o charme da prova). Tem mar, asfalto, mato, barro, estrada de terra. Muita subida e descida. Cada um encara 20 quilômetros (essa distância pode ser aliviada com o uso de até dois atletas reservas) divididos em quatro trechos por cabeça ao longo de uma jornada que costuma passar de 10 horas. Além de correr, é preciso planejar. Um carro faz escolta e hidrata o corredor do trecho. Um outro carro precisa posicionar o próximo atleta no trecho seguinte. Uma trabalheira.


O brasileiro é apaixonado por provas de revezamento. Elas não param de crescer. Nem adianta procurar um exemplo similar lá fora. Nos Estados Unidos, o país das corridas, há 389 maratonas por ano. Corridas de equipe, porém, são exceções. Contam-se nos dedos. Na Europa, o normal são corridas individuais em que cada um percorre sua distância, faz o seu tempo, pega a sua medalha e volta para casa. No Brasil é diferente. O calendário verde-amarelo está coalhado de revezamentos no asfalto, na praia, na montanha.




O fenômeno fica ainda mais impressionante quando se lembra do incentivo dado pelos treinadores Brasil afora: eles odeiam os revezamentos. “É, eu não gosto não”, dá de muxoxo Mário Sérgio Andrade Silva, sócio da Run&Fun e colunista da RUNNER’S WORLD. “Você vai participar daquela gincana?”, pergunta um decepcionado Fabio Rosa, treinador da MPR de São Paulo, para um aluno após saber que o pupilo participaria da Volta à Ilha 2009.


Dá para entender o ponto de vista dos técnicos. Os alunos costumam voltar quebrados dos revezamentos. Em uma prova individual, a chance de cumprir as planilhas estabelecidas é maior. Nas corridas de equipe, o oba-oba e os incentivos “vai, vai” dos companheiros faz com que a empolgação vença a prudência. Os limites são rompidos. Algumas vezes, quem se rompe é o músculo. Por isso, os técnicos botam a mão na cabeça cada vez que são informados que o treinado vai se aventurar em um revezamento qualquer. Na letra fria da planilha, é um “volte duas casas” na evolução dos treinos.




O bolso também pode se machucar um bocado. Essas provas são caras, sobretudo em relação a um 10 km tradicional. A inscrição (nos revezamentos urbanos, o custo é mais baixo) ronda os 100 reais. Tem a viagem, o hotel, o rateio do combustível dos carros de apoio, o farnel de sanduíches, isotônicos, água, frutas que serão consumidos durante a prova. É difícil completar uma Volta à Ilha sem gastar menos do que 500 reais no pacote todo.


Se é tão caro, tão prejudicial, tão duro se aventurar nesses revezamentos, por que tanta gente teima em participar? A resposta tem a ver com a coletivização de um esporte que é intrinsicamente individual. Antes que isso vire uma chatíssima tese de mestrado, essa reportagem ganha um ponto final. Talvez seja mais fácil dar a resposta do “enigma do revezamento” contando a história de uma equipe que há cinco anos participa da Volta à Ilha em Florianópolis. Parece um exemplo isolado, mas não é. A trajetória da equipe Sidepal – que em 2009 ganhou o vistoso uniforme laranja da RUNNER’S – soará familiar para muita gente. No fundo, somos todos iguais.

Adorável indiada


Por Edu Elias*

Dessa vez, eu vou dormir legal...


Acordar bem e correr de acordo com os treinos dos últimos meses. Na minha quarta Volta à Ilha, finalmente planejei tudo. Vôo à tarde, jantar tranquilo em Floripa, hotel na cara da largada. Tudo beleza...

Sei. O trânsito da sexta-feira em São Paulo começou a inverter o jogo. Perdi o avião. Meu lado zen transformou as 4 horas de espera no aeroporto em sessões de alimentação, hidratação e alongamento. Sim, alongamento. Muita gente achou que era um doido aquele cara esticando as pernas nas cadeiras do saguão...

Músculos preparados, chega a hora. Embarque e... a aeronave tem um problema no rádio. Uma hora depois, troca de avião. Novo embarque.

Pra resumir: cheguei ao hotel às 2 da manhã. Prá acordar às 5! Meu companheiro de equipe, na cama ao lado, emite ruídos que fazem lembrar um urso faminto na direção de sua presa. Quem dorme com um leão rugindo ao lado? Calculo que dormi uma hora. Mas confesso: não dá prá botar toda a culpa da noite insone no meu divertido amigo Jaime.

Minha cabeça sempre gira a mil por hora na véspera das corridas importantes. Várias vezes fui para cama, e fiquei olhando o teto, ou lendo sem chamar o sono. Sei que isso acontece com muita gente.

O mais interessante é que, na hora da largada, o sono foi embora. E pernas prá que te quero. No primeiro trecho, 5 quilômetros que se encerram no forte São José, uma baita chuva. Encarada como um ingrediente para aumentar o heroísmo. O mais complicado não foi o barro no trecho de trilha e, sim, a falha nas indicações da prova. Nas bifurcações, as bandeiras no chão fizeram com que sete corredores se encontrassem numa espécie de congresso para tentar achar a saída do mato. Quatro minutos perdidos.

Que venha o segundo trecho. Meu maior desafio teve mais de sete km, com direito às pirambeiras da praia mole e da Joaquina. Longos morros acima e abaixo, fui bem e mantive a média de 5 min/km.

Entre o segundo e o terceiro trecho, o corpo mandou a mensagem. “Se quiser ir, vai você: eu parei...” Capotei atrás do nosso golzinho, que mais parecia uma cama king size. Acordei só com um toque na costela. “Faltam 20 minutos pra corrida”. Lavo a cara. Alongamento, aquecimento e vai... Vai prá galera. Os últimos sete km da prova foram devorados, sem problemas. Só alegria... Acabou a Volta à Ilha. E aí... eu dormi legal!


*Eduardo Elias é apresentador da ESPN Brasil. Correu em quatro dos cinco anos da Equipe Sidepal na Volta à Ilha em Florianópolis.

Bicho de oito cabeças

Não é fácil participar da Volta à Ilha. As vagas são disputadas a tapa. São 380 equipes, três mil privilegiados que são aceitos na corrida de 150 km em torno de Florianópolis. Se houvesse espaço físico para acomodar todos os interessados, seria corrida para 10 mil pessoas.

Mas, de vez em quando, presentes caem do céu. Em 2005, uma das equipes da Assessoria Esportiva MPR desistiu da prova após estar com a difícil inscrição na mão. O técnico Marcos Paulo Reis, dono da MPR, ofereceu as vagas para seus alunos e assim se formou uma equipe às pressas. Na base do amigo do amigo, dez pessoas se juntaram no time (o regulamento da prova permitia o acréscimo de dois reservas).

Ninguém conhecia mais do que dois integrantes. Tinha engenheiro, jornalista, administrador, mestre cervejeiro, economista. Tinha gente lenta e corredores mais fortes, conversadores e introvertidos. Tinha tudo para dar errado.

Não foi o que aconteceu. Por esses milagres da convivência humana, as diferenças desapareceram no fim de semana da prova em função da paixão pela corrida. Talvez a paixão pela bagunça também. Para quem nunca correu uma prova de revezamento do gênero, um parêntese olfativo. Cada corredor cumpre dois ou três trechos ao longo de dez, 12 horas. Mesmo trocando a roupa a cada trecho, o ambiente nos carros de apoio (é normal um deles ser uma van) vai pesando. No fim do dia, a impressão é que um animal morto foi integrado à equipe. O humor vai ficando menos, digamos, refinado.

Assim nasceu o nome da equipe. Em corridas longas, é recomendável ter vaselina à mão. O atrito em virilhas e mamilos pode fazer estragos respeitáveis. Um dos integrantes do time tinha um potinho de Sidepal, uma tradicional marca de vaselina. Em um bando de 10 homens, piada pronta com direito a trocadilho. A equipe estava batizada: Sidepal!

A história poderia terminar aí. Não terminou. Não basta correr, é preciso falar sobre a corrida. Um happy hour para mostrar as fotos, rodadas de chope e o compromisso de reunir a turma para o ano seguinte. Parecia promessa de campanha política. Só que foi cumprida. Um foi morar fora, outro tinha compromissos profissionais, um estava lesionado. A mesma estratégia da formação do time foi reutilizada. Amigos dos amigos preencheram as lacunas e assim veio o segundo, o terceiro e o quarto ano.

O grande desafio ficou para a quinta temporada da equipe Sidepal. Dos dez integrantes originais, seis estavam fora de combate. Cirurgia de joelho, fascite plantar, viagem a trabalho no exterior, convite para ser padrinho de casamento no dia da prova, bruxa solta.

Só que é da natureza da corrida de revezamento a reinvenção, o improviso. Talvez seja justamente o principal atrativo dela. Há pouco menos de um mês da largada, restavam somente quatro integrantes da equipe original. E mais ninguém. O administrador Marcos Bigongiari, o apresentador da ESPN Brasil Edu Elias (que fala sobre seus abaixo), o bancário Jaime Mendonça e este repórter.

Faltavam mais quatro. Chegaram a publicitária Camila Brasil, a dona de motel (mais piada pronta...) Regina Boucinha e o gerente de eventos Evandro Abreu. Na véspera da largada, o último integrante foi agregado: um treinador de Florianópolis, Paulo Domingos. Pessoas diferentes, quase desconhecidas, que 13 horas e 53 minutos depois já estavam grandes amigos.

Talvez seja essa a chave do enigma: a corrida quase sempre é um ato solitário, um esporte individual. Mesmo correndo com milhares de pessoas ao lado, é cada um por si. Os êxitos e fracassos vão para a conta corrente de cada um. O revezamento subverte a lei da corrida. O integrante de uma equipe divide seu rendimento com os companheiros. Na Sidepal, o treinador Paulinho chegou a correr abaixo dos quatro minutos por quilômetro (quenianos do Quênia ou de Guarulhos correm a 3min/km).

A festa que o time fez para ele foi no mesmo tom que a feita para Regina, com seus 7 min/km. Um torce pelo outro, quase sempre os tropeços merecem aplausos. O clima de aventura coletiva é outro fator estimulante. Uma simples Volta à Ilha ganha ares de Paris-Dacar pela vibração do grupo. Pode-se correr apenas 10 quilômetros, mas no final foram 150 quilômetros vencidos pelo grupo. E a marca da equipe vira a marca de todos. Assim funcionam as equipes. A Sidepal não é exceção. Por isso gostamos tanto dos revezamentos.


Equipe Sidepal (mais charmosa agora com a camisa da Runner’s...)
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