Desafio: Renatão quer correr

Esta é uma reportagem sobre um nascimento. A Runner’s World está dando à luz um corredor de 49 anos. O jornalista Renato Bacci, nosso revisor, decidiu dar um bico na vida sedentária. Nós vamos acompanhá-lo. Sua meta: terminar bem uma prova de 10 km lá pelo meio do ano. Vai, garoto!

Por Renato Bacci | Fotos Alexandre Battibugli

Sinal verde

Por Alexandre Sadao, ortopedista

Avaliei o Renato para o início de treinamento de corrida. Ele me pareceu bastante entusiasmado com o desafio e se encontra em boas condições para iniciá-lo. Ele tem um objetivo muito claro: melhorar sua qualidade de vida através de atividade física. Ele me trouxe alguns exames médicos, com resultados satisfatórios. A avaliação em meu consultório consistiu em uma entrevista (para saber o histórico dele) e um exame físico geral. Essa é a parte mais importante da avaliação, obtendo informações sobre hábitos de vida, vícios, medicações e histórico de lesões. Seus resultados foram bons de maneira geral, sem nenhuma história de sérias lesões ortopédicas, exceto uma na cartilagem da patela (joelho), operada com sucesso há dois anos, e um desconforto no tendão de Aquiles direito, sem grandes repercussões.

Nenhum histórico de desmaios ou cansaço excessivo para realizar tarefas diárias e pequenos esforços. Ele apresenta um acúmulo de gordura na cintura e musculatura pouco desenvolvida. Durante o período de treinos, darei suporte médico caso apareça alguma lesão ou desconforto no sistema músculo-esquelético, orientando seu tratamento. Embora não seja acessível para todos, o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar pode ajudar a evolução esportiva com menos riscos de lesão e com melhor desempenho.

"Você não está gordo." Eu canso de ouvir isso das pessoas quando reclamo do meu peso. Mas eis aí um assunto em que conta muito a impressão da própria pessoa. E, no meu caso, eu me sinto acima do peso. Há situações que deixam isso claro. Subir três lances de escada aqui na editora, por exemplo. Ou aquela bermuda que me servia um tempo atrás, e que hoje não sai do fundo da gaveta. Se eu não estou gordo, então a relação peso/potência anda bem desfavorável...

Perto dos 50 anos, apenas regular a dieta não era o bastante para me tornar “gente fina”. Era preciso largar a vida “sebentária”, como diz um amigo. Vir a trabalhar na Runner’s World foi o incentivo que faltava para começar a me mexer de verdade. Tem muita gente boa correndo, por que é que não iria funcionar comigo? Assim, me candidatei a ser protagonista de um programa de corrida. Iguais a mim, devem existir milhares por aí, que desejam “acrescentar vida aos anos que lhes restam”. Isso eu li aqui na revista, achei bacana. Resume bem o que muitos como eu almejam para o futuro.

Com a minha idade, uma cirurgia no joelho e colesterol controlado à base de remédio, era imperativo fazer um exame clínico prévio. Foi o que me levou ao Instituto Vita, onde fui atendido pelo doutor Alexandre Sadao. Ele fala mais sobre esse encontro aí embaixo, mas adivinhe a primeira coisa que ele disse logo no começo da nossa conversa? “Não, você não está gordo.” Mesmo assim, claro, não me isentou de praticar uma atividade física.

E ela começou bem levinha. O primeiro treino rolou no Parque do Ibirapuera. Duro foi acordar a tempo de estar lá antes das 7h... A primeira planilha parecia moleza. Moleza? Foi uma bela maneira de mostrar como era eu quem estava mole. Eu até que treinava bem, mas o esforço cobrava a fatura depois. Normal. O importante é que até agora o joelho não apitou, maravilha.


A primeira planilha: o Renato começou a dar um bico no sedentarismo desse jeito

Mas agora pegou no breu. Na segunda semana eu já estava contando os dias para os próximos treinos. Nem acordar cedo me assusta mais. Ainda mais que o sono melhora, deixa de ser comum acordar cansado, como ocorria. E tem a satisfação generalizada que toma conta da gente. Seja por estarmos dormindo melhor ou mesmo apenas por termos finalmente tomado uma atitude para mudar a vida. Eu senti satisfação parecida quase 20 anos atrás, quando parei de fumar. Até hoje me parabenizo em silêncio por isso.

Nem há sinais visíveis de melhoria, ainda. Se bem que minha mulher disse: “Sabe que a barriguinha está um ‘pouquinhozinho’ menor?” Ainda não sei se ela estava sendo sincera ou se era só brincadeira. Tudo bem, valeu. Incentivo em casa é bom e eu gosto. Daqui a um tempo vou pedir também a opinião daquela minha bermuda. Vamos ver o que ela diz.

Um treinador no cangote

Por Ricardo Hirsch, diretor técnico da assessoria esportiva Personal Life e treinador do Renatão

No início de janeiro, fui apresentado ao jornalista Renato Bacci, nosso ilustre personagem (ou seria cobaia?), que está disposto a incorporar a atividade física ao dia-a-dia. Como a gente quer que ele atinja esse objetivo, criamos uma meta concreta para incentivá-lo: correr 10 km em uma prova no fim deste semestre.

Não sei ao certo o que motivou Renato a querer sair da vida de sedentário, mas tive certeza de que seria um belo desafio quando soube que ele operou o joelho, não tem carro em São Paulo (sua família é do interior) e seu horário de trabalho não tem nada de fixo. Então, exigir uma rotina de um cara como ele é difícil. Seu dia-a-dia já sabota naturalmente os treinos coletivos, com outras pessoas. Mas o maior estímulo é saber que ele está a fim! Conheço gente sem a metade desses obstáculos, mas que não se dá nem a chance de tentar, desistindo antes mesmo de começar.

Foi dada a largada! Depois da avaliação antropométrica (porcentagem de gordura e massa muscular) e física condicionamento), começamos a monitorá-lo através de planilhas semanais, treinos coletivos (quando ele consegue ir), ligações, e-mails e reza braba. Faremos o possível e, quem sabe, o impossível para que ele se transforme em um corredor. E vamos esperá-lo embaixo do pórtico de chegada, em sua primeira prova de 10 km.
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