
Por Julia Zanolli
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A Universidade de São Paulo que eu conhecia era a USP dos estudantes, dos professores, dos melhores cursos superiores do Brasil. Era a USP de segunda a sexta, o lugar onde, por quatro anos, estudei jornalismo. Mas só agora, dois anos depois de formada, descobri que existe uma outra USP. Completamente diferente. Nela, o conhecimento dá lugar ao suor. E, em vez de livros e cadernos, encontramos tênis e pedais. Para conhecer essa outra USP, eu precisei visitá-la em um sábado de manhã.
É nesse dia, das 7h às 14h, que os 4173 644 metros quadrados do campus da USP no Butantã, zona oeste de São Paulo, se transformam na maior área de lazer da cidade, equivalente a três vezes o tamanho do Parque do Ibirapuera. Mas lá você não vê crianças brincando nem jovens fazendo piquenique. As cerca de 10 000 pessoas que circulam por ali aos sábados usam suas largas alamedas como local de treinamento — são, em sua imensa maioria, corredores, ciclistas e triatletas. Gente que vem de todos os cantos da cidade, com ritmos e objetivos diferentes, e encontra no campus um ótimo lugar para correr e pedalar.
Basta passar do portão principal para entender a transformação que o campus sofre no sábado. Mal o sol dá as caras e corredores e ciclistas começam a disputar espaço com os carros e ônibus que também circulam pelo local. E o termo é esse mesmo: disputar, não compartilhar. Os atletas se espremem entre os veículos em movimento, à esquerda, e os carros parados, à direita, junto ao meio-fio.
Apesar de não ser originalmente um espaço para praticar esportes, a USP tem predicados de sobra para ser adorada como tal: largas avenidas arborizadas, topografia variada (retões, subidas, trilha), extensos campos de grama, boa localização e estacionamento fácil. E ali existe a possibilidade de fazer circuitos maiores do que, por exemplo, em parques.
"As pessoas precisam de um espaço maior para treinar. E começaram a ir para lá porque, em vez de fazer longões de dez voltas de 3 km no Parque Ibirapuera, era mais fácil fazer três voltas de 10 km na USP", diz Nelson Evêncio, presidente da Associação de Técnicos de Corrida de Rua de São Paulo (ATC). "Não existe outro espaço igual para treinar em São Paulo. Fica um clima legal, com um monte de gente junta fazendo esporte", diz o corredor Wagner Gomes, frequentador assíduo do lugar.
Caos e Autogestão
Nelson Evêncio calcula que 120 assessorias esportivas utilizem a USP para realizar seus treinos de corrida, ciclismo e triatlo. E toda essa gente em movimento teve que se organizar segundo regras criadas por eles próprios e que não estão escritas em lugar nenhum. A administração da Universidade fechou os olhos para o caos que tem lugar no campus aos sábados e não criou normas capazes de organizar a prática esportiva naquele local. A falta de gestão desse espaço fez com que um equilíbrio muito frágil se estabelecesse entre corredores, ciclistas e motoristas. E, para que ele seja quebrado, basta um pelotão de bikes em alta velocidade encontrar com um corredor distraído ou com um motorista apressado.

Treinar na USP, assim, é também estar permanentemente exposto ao risco. Não existem estatísticas oficiais sobre o número de ocorrências envolvendo esportistas, mas só em 2010 foram 32 acidentes de trânsito com vítimas. Esse conflito urbano tem como principais cenas o choque entre corredores, ciclistas, veículos e pedestres, além de muito bate-boca e altas doses de intolerância. Para quem treina na USP, cada longão é, também, uma briga por espaço e respeito no asfalto.
O conflito
Nas três faixas de tráfego que compõem grande parte das alamedas da USP, o código de conduta velado dos atletas diz que quem está pedalando deve seguir no sentido dos carros, à direita. Os corredores vão no contrafluxo, também pela direita. E os carros e ônibus se acomodam nas faixas da esquerda.
Nessa organização precária, entretanto, os pelotões de ciclistas e de corredores formam barreiras, fechando a via e dificultando a passagem dos motoristas. Nessa hora, gritos, buzinas e sinais com as mãos ajudam a indicar as direções e a sinalizar as intenções de cada um, embora essas manifestações não sejam sempre pacíficas. "Quando os corredores invadem a área que seria das bikes, nós precisamos ultrapassar. Mas aí temos problemas com os veículos", diz o ciclista Maurício Gonçalves, que treina na USP há 15 anos. E muitos atletas reclamam que os motoristas "jogam o carro" em cima dos esportistas, em uma espécie de jogo para mostrar quem é que manda. "Mas tem corredor que acha que pode ficar em qualquer lado da rua, correr em qualquer sentido. Tem gente que acha que está no Parque do Ibirapuera, mas na verdade está correndo em uma via", afirma Evêncio.
Outra situação frequente são os embates entre os corredores e os ciclistas. A USP abriga todos os tipos de atleta, desde aqueles que buscam performance e precisam de velocidade em seus treinos até os que estão ali para aproveitar o fim de semana e correr ou pedalar em um local agradável. "Mas os acidentes estão normalmente relacionados aos ciclistas. Tudo que eles sofrem de desrespeito nas ruas, descontam nos sábados em quem está na USP", diz Evêncio. A corredora Isadora Zancaner, 26 anos, concorda: "É difícil chegar de carro aqui. Venho superdevagar, dando seta, e ainda assim eles xingam". Para os ciclistas, andar em pelotões é uma espécie de treino técnico, além de ajudar a diminuir a resistência do ar. Eles chegam a pedalar a cerca de 40 km/h.

O fato é que tantos paces e objetivos acabam entrando em choque nos muitos cruzamentos da USP. "Ninguém quer perder 5 segundos para esperar o outro passar, como se isso fosse fazer diferença no treino", diz a treinadora Daiana Gamboa, da assessoria esportiva Bk Sports. Nesse cenário, corredores, ciclistas e motoristas acusam-se de invadir o espaço um do outro e trocam xingamentos enquanto tentam chegar a seu destino — seja ele completar o treino, seja chegar em casa.
Propostas de mudança
Em 2003, a ATC fez um termo de uso do espaço com o então prefeito do campus, Geraldo Massucato. Nesse acordo, as assessorias eram cadastradas e pagavam uma taxa de cerca de 150 reais. Esse dinheiro era usado para trazer melhorias de infraestrutura e para pagar um funcionário que fiscalizava as tendas das assessorias. "Existem maneiras de explorar aquele espaço e de isso ser rentável para todo mundo. Atualmente as assessorias são uma espécie de camelôs no campus. Não vejo por que não cobrar pelo uso do espaço e reverter isso em melhorias na infraestrutura", diz Aulus Selmer, da assessoria 4any1.
Aquele acordo foi rompido no fim do mandato do professor Massucato, mas a corrida de rua continuou crescendo, assim como o uso e a importância da USP como espaço de treinamento, à revelia da Universidade. No ano passado, os treinadores de corrida de rua e de ciclismo se reuniram para montar um documento com sugestões para organizar a prática esportiva no campus. Esse documento foi entregue à Coordenaria do Campus em março de 2010 e a USP se comprometeu a estudar as propostas.
O professor da Escola Politécnica Sidnei Martins alega que a Universidade investiu no recapeamento de algumas avenidas do campus, o que beneficiaria a prática de esporte nesses locais. Segundo ele, as propostas entregues pela ATC estão sendo avaliadas e a área técnica da Universidade estuda a criação de uma ciclofaixa dentro do campus. Pretendemos separar as áreas de treino de ciclistas e corredores, essa vai ser uma das primeiras medidas a serem adotadas”, diz Cristina Guarnieri, da divisão de Relações Institucionais.

Mas todas as ações tomadas dependem de aprovação do Conselho Gestor da USP, formado por todos os diretores de unidades do campus, e por isso o processo é bastante lento. "São medidas que não podem ser tomadas isoladamente. Com a expansão do metrô e a chegada da estação Butantã próximo do campus, vai ficar mais fácil circular na USP. O fluxo de carros pode diminuir, sobram mais vagas de estacionamento, liberando mais espaço nas vias", diz Sidnei Martins. Mas a Coordenadoria do Campus garante que até o fim do ano os esportistas verão melhorias na USP e que serão implementadas regras de utilização do espaço. "Estamos cientes de que os esportistas geram um ônus para a USP, mas estamos dispostos a resolver esse problema. O mais importante é envolver a Universidade no processo de organização, para que os esportistas não sejam 'os outros'", diz Evêncio.
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